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Entrevista com Gustavo Tovar e Yon Goiecochea (vencedor do prêmio Friedman 2008)
By ordemlivre_admin
Criado 04/24/2008 - 21:34

Gustavo Tovar e Yon Goicoechea desempenharam um papel fundamental na mobilização da oposição à reforma constitucional venezuelana pretendida por Chávez, cuja ratificação foi decidida através de um referendo. Tal reforma o permitiria, entre outras coisas, candidatar-se indefinidamente à presidência.

Com a ajuda do movimento estudantil, o povo venezuelano, no dia 7 de dezembro de 2007, rejeitou a reforma. Diante de toda comoção criada e da atenção da mídia internacional, Chávez viu-se obrigado a acatar o resultado do referendo.

Abaixo, em entrevista exclusiva ao OrdemLivre.org, Gustavo Tovar e Yon Goicoechea falam sobre suas experiências com o movimento estudantil:

O que vocês fizeram para organizar o movimento estudantil que influenciou a opinião pública da Venezuela, mobilizando o país contra os planos de Hugo Chávez para se perpetuar no poder?

Yon: Nós começamos a nos organizar a partir das universidades de Caracas para depois nos espalharmos pelo resto do país e acabamos influindo no resultado de 2 de dezembro contra a reforma constitucional porque tratamos de manter a mensagem da forma mais simples possível: democracia e liberdade, e explicar porque essa reforma não era uma reforma democrática e poderia interferir no cotidiano das pessoas. Acredito que isto foi muito importante.

A utilização de novos símbolos e novas maneiras de motivar a juventude para participar politicamente também foi muito importante em nosso triunfo.

Gustavo: Acredito que conseguimos um bom resultado por manter princípios e valores democráticos, liberais e humanos vigentes em cada discussão, em cada conversa, e ter em conta um método não violento como a semente para a sociedade desejada, que ao invés de se curvar ao inimigo, o transforma. Ter tudo isso em mente nos permitiu seguir o caminho que seguimos. Quando se têm os valores bem claros e se atende a eles em cada momento, penso que as estratégias, táticas, sempre são um reflexo desse espírito; de um espírito de sonhos, de anseios.

Que lições vocês podem passar a estudantes que vivem em países com governos autoritários?

Yon: Acredito que o mais importante a ser feito é tomar partido. E entender que o que acontece no mundo também é sua responsabilidade, pois o mundo não se move sozinho, e que uma pessoa, ainda que possa parecer pequena, tem uma influência e essa influência parte de fazer o possível, ainda que possa parecer pouco.

Quando nós iniciamos este processo, nunca imaginamos que poderíamos derrotar um dos governos mais totalitários que a Venezuela já teve e, como você mesmo disse, o fizemos. E conseguimos porque colocamos o melhor de nós, uma vez que acreditamos em nosso país e de alguma maneira entendemos que temos muito mais coisas boas do que más para explorar na Venezuela. Então, se existe algo em que as pessoas de outras partes do mundo podem espelhar-se na experiência da Venezuela, é a vontade de fazer acontecer e nunca deixar de agir, mesmo que o que se faz não pareça importante.

Gustavo: Só complementando a idéia: quando você se compromete com um valor, como um valor liberal por exemplo, como princípio, você sabe que um liberal é responsável por suas coisas, por sua vida pessoal, por sua família e é responsável pela sociedade. Não pede licença para realizar seus sonhos. Simplesmente trabalha, estuda, se desenvolve para realizar seus sonhos. Então, penso que este é um movimento que assumiu sua responsabilidade e não pediu licença, tratou de agir da melhor maneira possível e do modo mais profissional possível, de modo que o resultado fosse o mais próximo dos objetivos.

Falando agora dos problemas recentes, vimos Chávez interferindo nas relações entre Colômbia e Equador, ameaçando a Colômbia com a possibilidade de um conflito armado. Mas todos sabemos que o exército colombiano é mais poderoso que o venezuelano. Vemos também Chávez ameaçar os EUA deixando de vender petróleo, mas sabemos que a Venezuela depende mais das importações americanas do que os EUA dependem do petróleo venezuelano. Vocês acham que Chávez superestima suas capacidades e seu poder ou vocês pensam que isto não passa de uma retórica vazia?

Yon: Sim, acho que é mais uma retórica vazia. Na prática, é a resposta ou a reação de um pequeno grupo de pessoas que hoje estão no poder. Os povos da Venezuela, da Colômbia e do Equador não têm nenhuma razão para brigar entre si. Esta é uma luta de poder e não de povos. Numa situação desta, em culturas que compartilharam tanto ao longo da história, o que provavelmente acontece é que qualquer uma das partes que iniciar um conflito irá ficar contra a opinião pública. Pelo menos na Venezuela, estamos muito comprometidos em manter a paz e a amizade com a Colômbia. De modo que seria muito difícil para Chávez decidir iniciar uma guerra, pois iríamos às ruas acompanhados de boa parte do povo venezuelano e, por que não dizer, de todo povo da Venezuela.

Hoje em dia muitos colombianos vivem na Venezuela, temos um tremendo intercâmbio cultural e comercial. A proximidade entre nossas culturas é muito intensa e profunda e por isso acho muito improvável uma possibilidade de guerra entre a Colômbia e a Venezuela, apesar de todas as bravatas e palavras vazias de Chávez.

Gustavo: – Quando vejo Chávez tomando essas atitudes, não sei se é por que ele é um ser malvado ou um grande irresponsável, um grande cínico. Ninguém pode brincar com o amor que a Venezuela e a Colômbia têm entre si, a menos que a pessoa seja, insisto, cínica ou muito má. E Chávez insistindo nessa guerra postiça com a Colômbia é só mais um resultado de um conjunto de erros que vem cometendo depois do 2 de dezembro que parecer tê-lo tirado do sério, tirado do caminho que ele pensava trilhar. E como não cativa mais o povo venezuelano como antes, está inventando esses escândalos como um modo de recuperar seu prestígio popular. Mas, curiosamente, este foi um tiro que saiu pela culatra, pois cada vez que ele inventa um novo escândalo, mais isolado ele fica. É ridículo.

Agora com a derrota de Chávez, qual é o próximo passo? O que fazer para seguir promovendo mundanças socias na Venezuela?

Jon: Difundindo valores democráticos e valores de liberdade e não somente nas universidades ou nos meios acadêmicos, mas indo nas comunidades e especialmente nas comunidades mais pobres que não recebem a mesma informação que nós. Devemos dar oportunidades e abrir os olhos para as enormes possibilidades que o mundo de hoje oferece aos jovens. Ser humano e ser livre em nosso cotidiano parece ser a melhor forma de continuar nosso caminho. Acredito que fazer política com humanidade e liberdade é o principal valor e a principal meta que estamos fixando agora, difundindo a idéia de que o ser humano é capaz de auto-gerir sua vida e assim construir uma vida melhor para os demais.


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