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Por que os economistas são tão incompreendidos?
By ordemlivre_admin
Criado 06/06/2008 - 14:41

por Russell Roberts

Eu estou em um evento social, onde estão presentes alguns médicos. Um deles está discutindo um remédio controlado para uma doença específica. Eu o interrompo com um longo discurso a respeito da medicação, explicando que seu entendimento a respeito está incorreto. Que ele não compreende as aplicações mais importantes do medicamento. Que suas análises dos efeitos colaterais são absurdas. Pacientemente, eu esclareço para as outras pessoas que o médico está simplesmente errado.

Esse episódio, claro, nunca aconteceu. E, ainda assim, em vários encontros sociais, eu escuto médicos me explicarem como o salário mínimo é bom para os pobres, já que aumenta os salários e não tem efeito algum sobre a taxa de desemprego. Vários médicos já me explicaram pacientemente que o meu entendimento do mercado energético é incorreto, que ali não existe competição, apenas a ganância de imensas companhias multinacionais que aumentam o preço da gasolina de vez em quando e só o abaixam para mascarar a sua sinistra capacidade de nos explorar.

Então, eis a questão: por que os médicos se sentem competentes para contradizerem economistas em questões econômicas, enquanto os economistas nunca contradizem os médicos em questões médicas? Existe uma explicação simples para isso. Os médicos se sentem mais seguros do que os economistas em relação a sua capacidade de compreender o mundo à nossa volta. Os médicos sentem que detêm o poder sobre a vida e a morte. Isso se transforma em uma alta dose de auto-estima que os leva a exageros intelectuais ocasionais.

Pode até ter alguma dose de verdade nessa hipótese, mas eu duvido que muitos médicos contradigam engenheiros a respeito da segurança de uma ponte ou corrijam a afirmação de um astrônomo sobre a identidade de uma constelação. Só nos resta uma conclusão bem deprimente: os médicos (e várias outras pessoas) não respeitam os economistas como fonte de informação confiável em relação a vários assuntos econômicos. Eu costumava pensar que isso era inevitável, por serem os economistas cientistas sociais e não cientistas “reais”. Não há dúvida de o nosso baixo prestígio aos olhos da população tem relação com a imprecisão da economia, quando comparada a campos de estudo mais confiáveis, como a física e a química.

Porém, eu passei ultimamente a imaginar se não há um mal-entendido mais essencial acontecendo. Esse mal-entendido seria sobre a essência do campo da economia. Eu descobri que a maioria das pessoas, mesmo as mais educadas e inteligentes, não têm a menor idéia do que um economista faz ou do que a economia, como disciplina, tem a contribuir para a compreensão do mundo à nossa volta.

Eu tive uma amostra do problema certa vez, quando estava em um avião, e uma mulher ao meu lado me perguntou sobre a minha ocupação. Eu respondi que escrevia livros sobre economia. “É uma pena que meu marido não esteja aqui”, disse ela. “Ele adora livros sobre a bolsa de valores”. Eu gostaria de ter respondido que estava feliz por ele ter ficado em casa, já que não tenho nenhum interesse em livros sobre o mercado de ações. Eu me segurei, mas aprendi uma lição que se confirmou em conversas subseqüentes com estranhos altamente qualificados educacionalmente: a maioria das pessoas acredita que a economia tem algo a ver com as finanças pessoais e com a bolsa de valores. Na melhor das hipóteses, os que não são economistas pensam que a economia é apenas o macro, que lida com PIB, taxas de juros e política monetária. A maior parte dos não-economistas acredita que esses assuntos são assustadores ou chatos. Não é de se estranhar que a maioria das pessoas não esteja ciente que a economia tem algo a dizer a respeito do que Alfred Marshall chamou de “assuntos práticos da vida.” Esse lado da economia, o lado micro, o lado que se concentra no comportamento humano, tanto em nível individual quanto grupal, foi minimizado pela ênfase nas notícias financeiras, nas taxas de juros e no mercado de ações.

Você consegue ver parte desse problema quando menciona a palavra “mercados” para um não-economista. Ele imediatamente pensa no mercado de ações, ao invés do conceito econômico um tanto surreal, onde compradores e vendedores são conectados pelos preços.

O que pode ser feito?

Então, o que nós podemos fazer para dar aos não-economistas uma idéia do que é a economia na realidade? A resposta mais simples, claro, é ensinar economia a mais pessoas. Mas isso seria um beco sem saída. Se as pessoas têm uma idéia pré-concebida de que a economia se resume apenas às questões financeiras e se elas se sentem entediadas ou intimidadas pela possibilidade de uma palestra sobre finanças, então essa solução não ajudaria. A situação parece um pouco com um antigo sketch do “Saturday Night Live” sobre a Smucker’s Jam. Como você pode comercializar um produto com um nome tão desestimulante? Com um nome desses, economia... Isso deve ser fascinante!

Uma saída mais prática e atraente seria selecionarmos um nome diferente para a disciplina, um nome que escape do termo “economia” que, com razão, faz as pessoas pensarem em questões financeiras. Quando estranhos me perguntam o que eu faço da vida, não digo mais que ensino economia. É uma resposta que acaba com a conversa, a não ser que você esteja falando com um fã da bolsa.

Eu preferiria dizer que estudo o comportamento humano. Porém, a maioria das pessoas suporia que isso significa psicologia. Então, agora, digo às pessoas que leciono ordem espontânea. Ao invés de matar a conversa, essa resposta geralmente me garante, na seqüência, uma pergunta sobre a ordem espontânea. O que me dá a chance de falar sobre Adam Smith e a mão invisível e a discussão de Hayek sobre o uso que os mercados fazem da informação.

A minha idéia de falar sobre a ordem espontânea é apenas uma forma de melhorar a reputação daquela que George Stigler chamou de a rainha das ciências sociais. Muitos de vocês compreendem que a economia é muito mais que o mercado de ações ou as taxas de juros. Eu gostaria de saber como vocês acham que a economia poderia melhorar o seu problema de imagem. Mandem-me por email (roberts@gmu.edu) as suas sugestões. Se eu gostar de alguma delas, eu a usarei em festas, coquetéis e a destacarei em uma futura coluna.

Original em inglês.


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