por Kerry Howley
Dr. Love está com problemas. O lado comercial de sua carreira está indo bem. Há o cruzeiro dos casais, a revista, as noites dos solteiros e a ideologia sexual criada por ele, chamada “biocomunicação”. E a mídia internacional parece ainda não estar satisfeita: parece que nos últimos anos toda agência de notícias do mundo publicou uma história sobre o “Super Programa de Concepção de Bebês”, criado por um jovem ginecologista, que iria colocar 10 casais competindo para ver quem conseguiria conceber primeiro - uma atitude pública contra as taxas de fertilidade absurdamente baixas de Cingapura. Como parte desse programa de incentivos patrocinado pelo governo da cidade-estado, Wei Siang Yu deseja apenas que os casais trabalhem menos e forniquem mais. Porém, parece que o médico não está conseguindo fazer com que os casais de vinte e poucos anos de Singapura vão para a cama.
Pergunte às mulheres sobre o Dr. Love e você receberá sorrisos sarcásticos. Pergunte sobre o seu DVD que estimula o sexo, supostamente está disponível nas grandes lojas, e os vendedores não terão idéia do que você está falando. Pergunte a um de seus assistentes em seu escritório doméstico se os jovens realmente alugam as suas almofadas da procriação, que são controladas por um “balanço sexual” de aparência complicada, entre outros equipamentos para o sexo com aventura, e ele mudará de assunto.
Os aliados de Dr. Love na guerra contra a falta de filhos não conseguiram nada melhor. A agência de encontros oficial do governo de Cingapura, a SDU – as iniciais significam Unidade de Desenvolvimento Social, mas são também conhecidas como “Solteira, Desesperada e Feiosa” – está localizada ao lado o principal shopping a céu aberto da cidade, e parece não ser tão popular quanto a Empório Armani da rua ao lado.
Atualmente, o slogan oficial da campanha de concepção de bebês de Cingapura é “Três ou Mais.” Porém, os cingapurianos em idade reprodutiva cresceram ouvindo um slogan completamente diferente: “Pare no Segundo.” Como na maior parte da Ásia Oriental, a população da pequena ilha explodiu depois da Segunda Guerra Mundial – cresceu mais de 90 por cento apenas entre 1957 e 1970. Na Era de Aquário, outdoors e pôsteres advertiam os casais jovens que “quanto mais filhos vocês tiverem, menos recursos eles terão” e “sejam meninos ou meninas, dois são suficientes.” Os pais que concordavam em ser esterilizados depois de terem dois filhos tinham prioridade nas matrículas para a escolha primária.
Desde então, as condições demográficas mudaram radicalmente, mas o Estado manteve o seu grande interesse sobre a procriação. A “taxa total de fertilidade” de Cingapura, uma previsão rudimentar sobre quantos filhos uma mulher terá durante sua vida se os padrões atuais persistirem, está entre as menores do mundo (1.07), mas a falta de bebês não é um problema que a ilha enfrenta sozinha. De Hong Kong (0.98) à Itália (1.29), ao Canadá (1.61), a maior parte da população mundial viverá, em breve, em países onde a taxa de fertilidade está abaixo do nível de substituição (2.1). Governos bem menos autoritários que o de Cingapura também estão se intrometendo nas escolhas em relação a gravidez. Depois de 200 anos de crescimento populacional exponencial, e apenas quatro décadas depois de as previsões pessimistas sobre a superpopulação passarem a ocupar a lista dos mais vendidos, o primeiro mundo foi subitamente capturado pela histeria do declínio populacional.
E todo mundo tem uma explicação para isso.
“A Europa está enfrentando um desastre demográfico,” disse Mitt Romney, ex-candidato à presidência pelo Partido Republicano, no discurso em que se retirava da corrida presidencial. “Esse é um produto inevitável do enfraquecimento da fé no Criador, do fracasso das famílias, do desrespeito à santidade da vida humana e da erosão da moralidade.”
O falecido Papa João Paulo II concordava com o mórmon mais famoso dos Estados Unidos, ao falar da “crise dos nascimentos”. Na esquerda, você consegue encontrar pensadores da demografia como Phillip Longman, autor de The Empty Cradle [O Berço Vazio], e o demógrafo australiano Peter McDonald, que argumentam que estamos a caminho de um futuro negro, a não ser que os governos comecem a entregar às futuras mães presentes valiosos em seus chás de bebê.
Livros como o romance Os Filhos da Esperança, de P. D. James, publicado em 2002 (e transformado em um filme sombrio em 2007) se juntam a America Alone, de Mark Steyn, na descrição de um cenário áspero e violento em um mundo sem bebês. Mesmo nos Estados Unidos, onde o crescimento populacional permanece irrepreensível, caso único entre as nações ricas, as preocupações sobre a demografia, motivadas ideologicamente, conseguiram encontrar espaço no debate nacional. Elas aparecem comédia de ficção científica Idiocracy, de 2004, onde homens e mulheres inteligentes, tendo fracassado na tentativa de se reproduzir, acabam por condenar o mundo à incapacidade mental coletiva no século XXVI (quando o presidente dos Estados Unidos é uma estrela pornô e o programa mais popular da TV se chama Ai! Meu Saco!). Elas aparecem no documentário histérico Demographic Winter [O Inverno Demográfico], onde podemos assistir um homem nu e isolado, tremendo em um depósito vazio.
Os países desenvolvidos estão experimentando uma onda de sentimentos pró-natalidade que ameaça intimidar aqueles que não têm filhos, cobrar impostos sobre os solteiros e reorientar os Estados para a produção - ao invés da proteção dos cidadãos. Na maioria das nações desenvolvidas, com taxa de fertilidade abaixo da taxa de substituição, os governos estão tentando propor incentivos para que as mulheres utilizem seus corpos para a reprodução. Nos Estados Unidos, grupos religiosos de direita estão clamando por uma redução da liberdade contraceptiva e por um retorno a arranjos patriarcais, tudo em nome de algo chamado de “balanço demográfico.”
Esse pode até parecer um movimento organizado, mas ele está longe de ser coeso. Embora os ativistas pró-natalidade compartilhem uma obsessão em relação à procriação, eles são levados a essa ansiedade por vários medos diferentes. Como grupo, lhes preocupa que seus países estejam admitindo muitos imigrantes, ou muito poucos; que nós libertamos as mulheres demais, ou não o suficiente; que a assistência social está muito forte, ou muito fraca. Escolha qualquer questão social que cause desacordo – a falta de religiosidade ou o excesso dela – e você encontrará uma pessoa para ligá-la ao declínio demográfico.
O pânico sobre a fertilidade moderna é originário de um desejo de se reformular as culturas poliglotas, de se readquirir controle sobre as escolhas reprodutivas das mulheres e de se arranjar um culpado único e facilmente identificável para diversos problemas sociais. As sociedades estão projetando suas angústias mais profundas sobre ventres vazios, como fizeram por centenas de anos.
Adeus, bebês
Se você é uma mulher em idade fértil em um país desenvolvido, há uma grande chance de que o seu governo irá lhe pagar para que você se reproduza a uma taxa desejável. As mulheres russas que optam por ter um segundo filho recebem um total de 250,000 rublos (9,200 dólares) – nada mal quando comparados ao valor padrão na Polônia, apenas 1,000 zlóti (460 dólares) por criança. A França e a Suécia combinam incentivos pró-natalidade com esquemas de assistência social mais tradicionais. Casais férteis na Suécia, por exemplo, recebem um total de 13 meses de licença maternidade, 11 dos quais podem ser tirados por um dos membros do casal. Durante esse período, o governo proverá 80 por cento do salário integral do licenciado. Os pais também recebem 900 euros (1,410 dólares) por ano; e os chefes devem permitir que seus empregados trabalhem meio período, com um salário proporcional, depois que têm filhos.
Em maio de 2004, o governo australiano tentou aumentar a sua taxa de natalidade de 1.76 anunciando que os pais de crianças nascidas depois de 1 de julho de 2004 receberiam 3,000 dólares australianos (2,800 dólares). Conforme economistas australianos apontaram mais tarde, as grávidas que deveriam ter tido filhos em junho não deixaram o nascimento de seus filhos por conta da natureza e nasceram mais crianças no dia 1 de julho de 2004 do que em qualquer outro dia nos 30 anos anteriores.
O SDU do governo de Cingapura oferece um conselheiro amoroso gratuito, que entrevista jovens solteiros sobre si e seus parceiros ideais. O conselheiro escolhe um par e os solteiros elegíveis assistem vídeos uns dos outros até que marquem um encontro. Antes da grande noite, são oferecidas maquiagens aos dois e o SDU dá palestras gratuitas sobre aparência pessoal. “A higiene pessoal não termina com um banho e roupas limpas,” diz um prestimoso guia de encontros. “Nos encontros mais próximos entre os sexos, a higiene oral não pode ser ignorada... a halitose extrema pode necessitar de auxílio médico.” E as benesses vão bem além dos primeiros encontros. O primeiro e o segundo filho garantem ao casal bônus de 3000 dólares de Cingapura (2,200 dólares americanos) cada, e o terceiro e quarto filhos garantem 6,000 dólares de Cingapura (4,400 dólares americanos) cada. O governo também guarda dinheiro em poupanças especiais para as crianças, que podem ser utilizadas para o pagamento de creches ou outros gastos dos filhos.
Em Cingapura, e em todos os outros lugares, a mudança do baby boom para o “baby bust” causou uma extraordinária inversão de papéis dos obcecados em procriação. Os conservadores pró-família foram de um pedido seguro de calma diante de livros como Famine 1975!, de William Paddock, que propunha um sistema de triagem para lidarmos com uma inevitável fome coletiva; à colocação de lenha na fogueira do medo das taxas de natalidade. Allan Carlson, líder do Congresso Mundial das Famílias e, por muito tempo, um dos mais virulentos adversários das políticas de controle de população das Nações Unidas, começou a dizer às pessoas que “o problema demográfico que enfrentaremos no século XXI é a despopulação, não a superpopulação.”
De todas as narrativas americanas possíveis para explicar o declínio da fertilidade, nenhuma parece ter mais poder do que uma história de valores de esquerda que nos levaria inexoravelmente à extinção. Em março, a Family First Foundation, de Illinois, lançou um documentário chamado Demographic Winter: The Decline of the Human Family [O Inverno Demográfico: O Declínio da Família Humana]. Enquanto vários especialistas explicavam nossa queda até a extinção, os produtores apresentavam suas hipóteses em tópicos: Divórcio, Mulheres Trabalhadoras, Prosperidade, A Revolução Sexual, e o que chama de “Ideologias.” Crianças saltitantes vão desaparecendo lentamente até sumirem – um arrebatamento pobre que se repete durante o filme. A coabitação, o feminismo e a cultura pop também não se saem muito bem. Nossas economias desmoronam – “Quem ocupará as fábricas?” pergunta a frase na tela, uma idéia que deveria tirar o seu sono caso você suspeite que os produtores desaparecerão mesmo que ainda existam consumidores. A Queda de Roma é invocada e a ascensão do “Ocidente” é mencionada mais de uma vez. Kay Hymowitz, um crítico social conservador, descreve o advento do “Crianção”, que está mais interessado na Maxim do que na procriação, enquanto o filme mostra um homem jogando Wii com dedicação, e a sua suposta esposa o observando, melancólica, ao seu lado.
Do outro lado do atlântico, a imprensa britânica está cheia de artigos de opinião, ricos em autodepreciação, a respeito de pessoas muito interessadas em si mesmas para se reproduzirem. Entre os artigos que representam essa tendência, citamos um do Sunday Times cujo título diz “Desculpe filho, mas o nosso estilo de vida vem primeiro” e outro do Daily Mail que tem um título mais direto “Por que SOMOS egoístas demais para termos filhos?”
Será que as revistas masculinas e a Nintendo são os responsáveis pelo declínio global das taxas de natalidade? De um modo geral, as nações que são mais desenvolvidas (tendo assim mais chances de produzir vídeo games e revistas masculinas) produzem menos crianças do que as nações menos desenvolvidas. Porém, enquanto o Democratic Winter usa a Europa como exemplo, como o último exemplo de comportamento, a demografia atual do continente contradiz amplamente a idéia de que sociedades mais conservadoras tendem a produzir mais crianças.
Religião? São os países mais religiosos da Europa, como a Itália, os que têm as menores taxas de fertilidade; a secular Noruega está um pouco abaixo do nível de substituição. Mulheres trabalhando? Os países europeus com as maiores participações femininas na força de trabalho, como a Suécia e a Noruega, tendem a ter uma taxa de fertilidade mais alta do que daqueles com uma porcentagem comparativamente baixa de mulheres trabalhando, como na Grécia.
Coabitação? Na França, onde se “amigar” é a norma social, a taxa de fertilidade é mais alta do que em quaisquer de seus vizinhos mais próximos. Instabilidade familiar? O demógrafo Tomas Sobotka argumenta em seu próximo livro, Demographic Challenges for the 21st Century [Os Desafios Demográficos do Século XXI] que as taxas de divórcio na Europa podem ser positivamente correlacionadas com as taxas de natalidade. “Muitos países que se aprofundaram mais no declínio da família tradicional e na popularização de estilos de vida menos tradicionais e menos estáveis”, escreve ele, “possuem taxas de fertilidade relativamente altas quando julgadas a partir dos padrões europeus contemporâneos.” Baixos índices de desenvolvimento econômico junto com um conservadorismo social podem muito bem produzir níveis de fertilidade altos; mas na Europa moderna, parece que o que a combinação de uma economia moderna com o conservadorismo social pode produzir é uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo.
Na primeira metade do século XX, os demógrafos em geral acreditavam que a urbanização, a industrialização e a educação eram os determinantes principais do declínio da fertilidade. Mais tarde, os economistas neoclássicos pensaram na hipótese de que a taxa de declínio se correlacionaria com as taxas de aumento do custo de oportunidade das mulheres ao permanecerem fora do mercado de trabalho e no custo relativo da criação de crianças.
Essa última teoria é útil como “uma forma de estruturar o pensamento,” de acordo com Nicholas Eberstadt, demógrafo do American Enterprise Institute, porém, como em quase toda teoria da fertilidade, há vários pontos que ela não consegue explicar. O custo relativo de se ter filhos é realmente muito alto em Hong Kong, no Japão e nos Estados Unidos, mas esses países têm taxas de natalidade bem diferentes. A teoria também não explica por que a taxa de natalidade é mais baixa no norte da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá do que no sul dela.
E o mais estranho de tudo, a taxa total de fertilidade está caindo mais rápido em países predominantemente rurais, com baixas taxas de alfabetização feminina e com poucas oportunidades de trabalho. As grandes quedas no sul da África e na África subsaariana foram uma surpresa tanto para os economistas, quanto para os demógrafos. Em 1970, de acordo com o UNICEF, a taxa de fertilidade total em Bangladesh era de 6.4. Em 2006, era de 2.9. A taxa no Zimbábue caiu de 7.4 para 3.3 durante o mesmo período.
A teoria de que o desenvolvimento econômico leva à queda da fertilidade cai ao observamos o primeiro dado demográfico pesquisado. O primeiro país a obter uma sustentada queda da fertilidade não foi a Inglaterra, berço da revolução industrial. “Foi a França!” exclama Eberstadt. “A França era rural e pobre, amplamente analfabeta e, além disso, era católica. Isso refuta várias coisas que achávamos que supostamente deveriam fazer uma ponte entre a modernização e a mudanças na fertilidade.
O Estado do bem-estar social dos bebês
A narrativa conservadora sobre o declínio da fertilidade é uma das armas da Guerra cultural da direita, projetada para receber elogios nas páginas da Human Events e críticas nas páginas da The Nation. Mas isso é mais nostalgia do que um programa político; é mais uma condenação generalizada do progresso, do que um plano para o futuro. Após a exibição de Demographic Winter na Heritage Foundation, um “think tank” socialmente conservador de Washington D.C., foi perguntado a um grupo de comentaristas empolgados como se atingir a grande reversão cultural necessária para determos a extinção coletiva. A julgarmos pela lógica do filme, isso envolveria revertermos a revolução sexual, trazermos as mulheres de volta para casa, eliminarmos a moral individualista e abolirmos o estado do bem-estar social. A maioria dos especialistas tinha pouco a dizer. Um deles sugeriu uma “educação moral.”
Na prática, no campo da política, o pânico demográfico só é útil para um objetivo: a promoção de programas de bem-estar social aos quais muitos desses conservadores sociais se oporiam. Da França, à Polônia, até Cingapura, os governos estão respondendo à baixa fertilidade com políticas com as quais os social-democratas sempre simpatizaram. Quase todos os aspectos do Estado do bem-estar social podem ser apontados como favorecedores à procriação; além disso, a culpa da baixa fertilidade pode ser jogada sobre a falta de um programa social em particular. A escassez de mulheres grávidas é uma evidência de que a proteção aos trabalhadores não é suficiente, que os recursos da assistência social são muito baixos, que o período letivo nas escolas públicas é muito curto e que a licença maternidade obrigatória é limitada. As mulheres desejam desempenhar o seu papel natural de ser mãe, dizem, mas o capitalismo selvagem é uma barreira em seu caminho.
“Evidências revelam que, na maioria dos países, a maioria dos jovens aspira ter um relacionamento duradouro e filhos,” escreveu Peter McDonald em um influente artigo de 2005, sobre as políticas de fertilidade. “Entretanto, diante das realidades do novo mundo social e econômico, muitos não preenchem essas aspirações.” McDonald culpa a desregulamentação e o “neoliberalismo” pelo ambiente hostil à procriação. “Os Estados”, conclui ele de forma clara, “devem ser os principais articuladores do restabelecimento do equilíbrio social.”
A alegação de que as mulheres não estão tendo tantas crianças quanto gostariam é baseada na “fertilidade desejada”, ou o número de filhos que as mulheres dizem querer ter quando entram em seus anos férteis. Na Europa, mesmo que as mulheres cada vez mais escolham não ter filhos, elas ainda continuam a dizer a pesquisadores que desejam ter dois filhos. Essa disparidade é vista, às vezes, como uma “demanda insatisfeita”; teoricamente, os governos devem dar assistência às mulheres em sua busca para ter os filhos que dizem querer ter.
Quando o conceito se apresenta dessa forma, a maioria de nós tem “demandas insatisfeitas” em relação a vários bens – televisores de tela plana, iates, MacBooks – que os contribuintes não conseguiram nos ajudar a comprar. Ninguém duvida que seja possível estruturarmos incentivos para que mais mulheres usem seus corpos da maneira que os políticos prefiram, e é esse o motivo pelo qual vários argumentos da esquerda em favor de políticas de estímulo à fertilidade são suspeitosamente auto-afirmativas. Ao receberem a oferta de milhões de dólares por partos, as mulheres iriam, na verdade, sair para o mercado de trabalho com mais freqüência. As mulheres grávidas então poderão ser vistas como se respondessem racionalmente a incentivos ou como se “realizassem as suas aspirações” de se tornarem mães. A pergunta mais relevante, e que é a menos levantada, é que se as mulheres que escolhem não ter filhos devem ser forçadas a subsidiar aquelas que escolhem tê-los.
Existe uma explicação alternativa para o comportamento das mulheres jovens que declaram um desejo de ter dois filhos e, mesmo assim, tem apenas um ou nenhum: as mulheres podem estar dizendo aos pesquisadores o que pensam que os pesquisadores desejam ouvir, ou simplesmente recitam falas decoradas a partir de scripts culturais. “As respostas podem apenas refletir estereótipos,” escrevem os demógrafos Gustavo De Santis e Massimo Livi Bacci, em um estudo de 2001, “e não constituem um guia confiável das verdadeiras preferências das pessoas ou das suas intenções para o futuro.” A norma dos dois filhos, acrescentam, “é dominante, em geral, em nossos tempos.” Homens e mulheres podem continuar a idealizar a família nuclear – um menino, uma menina – por muito tempo depois do seu auge.
No momento, pequenas contribuições em dinheiro não parecem fazer muito para aumentar as taxas de natalidade na Europa e na Ásia. Tentativas mais sofisticadas de se reduzir o fardo das mães trabalhadoras, como creches subsidiadas ou regulações a respeito do status de trabalhadores em meio-período, podem aumentar um pouco as taxas de natalidade, mas não há consenso sobre sua eficiência. As taxas de natalidade sobem e descem e é difícil estabelecer uma causalidade mesmo quando as taxas de fertilidade disparam após a implementação de uma política.
Michael Teitalbaum, um historiador da demografia, diz conhecer apenas dois lugares onde as políticas pró-natalidade atingiram resultados reais em longo prazo. Um foi na Alemanha Oriental comunista, onde os salários foram mantidos tão baixos que o governo conseguia pagar bônus por bebês que equivaliam a um terço do que uma mulher ganharia se tivesse trabalhado durante aquele ano. O outro foi na Romênia comunista, onde o ditador Nicolae Ceausescu criminalizou o aborto e a contracepção em outubro de 1966, sem aviso algum. O crescimento das taxas de natalidade foi o mais alto da história. Isso funcionou por uma década, diz Teitelbaum, “até que as pessoas reconstruíram os seus meios ilegais de controlar a sua fertilidade.”
A agonia da taxa de natalidade
A despopulação não é um fenômeno novo. Ela está apenas voltando após um período longo e irregular de pânico acerca da superpopulação. Ondas de ansiedade a respeito das taxas de natalidade varreram a França no início do século XIX e os Estados Unidos entre as duas guerras mundiais. As preocupações do mundo desenvolvido de hoje são, de certa maneira, incompreensíveis: ninguém que esteja vivo hoje consegue se lembrar do tempo em que a população global não estava crescendo. O crescimento se tornou a norma, e essa norma pode mudar em um futuro próximo. “Quando o crescimento se torna negativo, mesmo que seja um pouco,” diz Taitelbaum, “algumas pessoas imediatamente dizem, bem, isso é grande mudança no que significa ser uma sociedade humana.”
Grande ou não, uma mudança demográfica requer ajustes, principalmente de programas de pensão que são construídos sobre suposições equivocadas de uma expansão infinita. O declínio da fertilidade altera a estrutura etária básica de uma sociedade, da mesma forma que o baby boom o fez há meio século. Nem os declínios graduais, nem os aumentos graduais da população precisam ser destrutivos, mas o primeiro requererá mudanças concretas nos programas de redistribuição e uma reorganização de recursos.
Para aqueles que, com boas razões, se preocupam com a solvência de programas de transferência de renda em uma era de declínio populacional, a substituição pela imigração parece ser uma solução parcial, e então a xenofobia passa a ser parte do problema. Mas para muitos, senão a maioria das pessoas que se preocupam com as taxas de fertilidade, a imigração não seria solução. A questão não é sobre os Estados Unidos, Cingapura ou França estarem sem habitantes em 2100; a questão é sobre que tipo de pessoa habitará esses países: como eles serão, o que ensinarão nas escolas, que Deus eles temerão. Mark Steyn, em America Alone, adverte que em algumas gerações a Europa será um continente mulçumano. Quando Pat Buchanan discute a despopulação em The Death of the West [A Morte do Ocidente] ele não avança e não sugere que substituamos as crianças de origem européia com trabalhadores mexicanos. As políticas pró-natalidade em Quebec, Cingapura e, até recentemente em Israel, focalizavam em um grupo étnico específico, em uma tentativa de preencher o futuro com a demografia desejada pela classe política atual.
Michael Taitelbaum e Jay Winter têm outra explicação para o atual pânico sobre a fertilidade. “Essas preocupações parecem surgir em momentos previsíveis,” escreveram em resposta a Phillip Longman, na Foreign Affairs de Setembro de 2004, argumentando que “quando um poder político ou econômico começa a se sentir inseguro sobre seu domínio e seu futuro, muitos pensadores buscam a demografia em busca de uma explicação para esses problemas.”
Em tempos de insegurança coletiva, os ventres vazios são vistos tanto como uma causa, quanto como um sintoma de um Estado supostamente em declínio. Em seu livro The Fear of Population Decline, de 1985, Teitelbaum e Winter dizem que a pró-natalidade se tornou uma obsessão francesa depois que a Alemanha invadiu a França no fim do século XIX. O romance Fécondité, de Émile Zola, publicado em 1899, é uma versão do século XIX para Demographic Winter, sem ser nada mais delicado em sua mensagem ou suave em sua advertência, Zola conta a história de um operário chamado Mathieu Froment e de sua esposa, Marianne, que têm filhos com uma freqüência que preocupa os seus vizinhos individualistas, egoístas e prósperos. Um contador burguês da fábrica relaciona a fertilidade à pobreza. Naturalmente, a sua esposa morre durante um aborto mal feito. O empregador de Mathieu zomba dos mais férteis, evita a reprodução e defende o neo-malthusianismo; seu único filho se torna um assassino e sua esposa enlouquece e morre. Os Angelins, um casal de individualistas, decidem adiar a maternidade; Madame Angelin morre sem filhos, sem dinheiro e completamente desgraçada. Em meio a isso tudo, os nobres Froments continuam a se multiplicar. “Em determinado ponto”, anotam Teitelbaum e Winter, “Marianne dá a luz a uma taxa de uma criança a cada duas páginas.”
O medo de uma invasão é um tema que perpassa toda a narrativa história do alarmismo sobre a fertilidade. Não é coincidência que a primeira grande onda de imigração americana tenha coincidido com um período de uma retórica maternalista elevada. O presidente Theorore Roosevelt era particularmente preocupado com o “suicídio racial” dos protestantes brancos. “A mais severa de todas as condenações deverá ser aquela atingida através da esterilidade voluntária,” disse ele em 1910, logo após o fim de seu segundo mandato. “A coisa mais importante para qualquer civilização é que os homens e as mulheres devem ser pais e mães de crianças saudáveis, para que a raça cresça e não decresça.”
Raramente, os períodos de ansiedade a respeito do “suicídio racial” são bons para as mulheres. Os protestantes preocupados com o crescimento dos católicos estrangeiros aprovaram as leis antiaborto em 1880, que duraram até 1973, quando o caso Roe v. Wade limitou o seu escopo. Mark Steyn, adotando a continuidade histórica com os nativistas que vieram antes dele, destina uma passagem de America Alone para culpar as mulheres por abortarem a geração que poderia ter estado entre nós e a futura islamificação do ocidente. Não nos surpreende de forma alguma que a maior preocupação social de nosso tempo tenha se reduzido às projeções demográficas incipientes que confina a culpa em ventres vazios.
A ciência evasiva
Em 1960, demógrafos de Princeton buscavam sustentar a teoria populacional corrente em um dos mais ambiciosos projetos demográficos de todos os tempos. O Projeto de Fertilidade Europeu, liderado por Ansley Coale, coletou grande quantidade dos dados de registros municipais e porões de igrejas, e mapeou as taxas de fertilidade em 600 províncias européias.
O problema: nenhuma teoria existente daria alguma coesão aos resultados. “Eles deram de cara em um muro,” diz Eberstadt. “Esse padrão de difusão do declínio da fertilidade não faz muito sentido para especialistas na força de trabalho ou para especialistas em industrialização. Então, um especialista lhes disse, “Ah, eu vejo o que vocês têm aqui; vocês têm um mapa das famílias das línguas da Europa moderna.” Os pesquisadores descobriram então que as pessoas que falavam a mesma língua tendiam ter a sua fertilidade declinando na mesma época. As mulheres tinham menos filhos por que suas amigas estavam tendo menos filhos. É uma conclusão absolutamente circular completamente fascinante. Que dominó dá inicio à cascata de falta de filhos?
“O problema,” escreve o historiador Charles Tilly na introdução ao Historical Studies of Changing Fertility [Estudos Históricos da Mudança na Fertilidade], “é que nós temos muitas explicações que são individualmente plausíveis em termos gerais, que se contradizem em certo nível e que não correspondem a uma parte significativa dos fatos.”
O resultado é uma pletora de narrativas explicativas, algumas com maiores poderes proféticos que outras, mas nenhuma totalmente satisfatória. E o que é pior, a própria “taxa ideal de fertilidade” é uma questão de preferência ideológica. “Não me parece óbvio qual seria o nível ‘correto’ de fertilidade de qualquer país,” diz Eberstadt. “É obvio qual seria a direção correta em relação à mortalidade. A direção correta é a queda. Mas a história da fertilidade muito mais complicada.” Não há nem mesmo um consenso sobre a relação entre o crescimento populacional e o crescimento econômico. Teoricamente, as rendas individuais podem continuar a subir enquanto a população cai.
Provavelmente, a resposta é uma combinação complexa das teorias que nós já possuímos – sociológicas, antropológicas e econômicas. No meio de tantas causas plausíveis, é tentador procurar por uma narrativa que se adéqüe às convicções que já tínhamos anteriormente ou que confirme nossas antigas ansiedades. A busca por uma ciência da demografia desprovida de valores continua a ser conduzida em vão, e a própria linguagem que usamos para discutir a queda das taxas de natalidade está cheia de julgamentos não científicos. As nações não estão apenas perdendo população; elas estão “morrendo”, se “sacrificando”, ou mesmo cometendo o “autogenocídio.” As taxas de fertilidade não apenas declinam; elas entram em “colapso”. O nosso futuro é “árido”, um “inverno demográfico”, marcado pela “esterilidade” e pelo “envelhecimento”.
Os falsos medos a respeito do declínio da fertilidade não eliminam aqueles que são justificáveis, e as taxas atuais de fertilidade são desafios reais, embora não sejam obviamente catastróficos. Em uma sociedade decrescente que se recusa a receber mais imigrantes ou reformar os programas sociais dos quais parte de sua população depende, terá de ceder alguma coisa. A distribuição de dinheiro em troca de crianças é diferente das políticas pró-natalidade de Ceausescu e Mussolini, e as políticas em favor da fertilidade deixarão de provocar acusações de totalitarismo quando elas foram incorporadas às políticas de assistência social mais amplas. Muitas mudanças vendidas como se apoiassem as mulheres trabalhadoras, como a extensão do horário das escolas públicas para combinar com o horário do expediente também são defendidas por suas qualidades próprias.
Mas como as políticas pró-filhos são inevitavelmente vendidas como sendo pró-mães, e assim pró-mulheres, vale a pena nos lembrarmos do sentimento por trás das recompensas australianas e dos programas de encontros de Cingapura. No coração de qualquer incentivo à fertilidade, existe uma tentativa de encorajar um grupo particular de mulheres a utilizarem seus corpos de uma maneira tradicional. Toda política pró-fertilidade é um esforço para frear a transformação cultural, para se estabilizar a composição étnica da sociedade, para se fossilizar a concepção atual de cultura nacional a partir do congelamento do conjunto genético de uma nação. Da Polônia até Cingapura, os ventres inchados são um reduto da resistência à mudança;
Existe uma razão para se falar sobre a “Mãe Rússia” e a “Mãe Índia”. Sociólogas feministas como Nira Yuval-Davis se referem às mulheres como as “marcadoras de fronteiras.” Enquanto os homens saem, lutam e fazem acordos, as mulheres representam a pureza e a continuidade. Yuval-Davis aponta em eu livro Gender and Nation [Gênero e Nação] que o movimento da juventude hitlerista tinha slogans diferentes para meninos e meninas. O slogan dos meninos era: “Viva com fidelidade; Lute com bravura; Morra feliz.” Para as meninas era: “Seja fiel; seja pura; seja alemã.” As meninas tinham apenas que existir. Elas eram o coletivo.
Em tempos de grande ansiedade social, nós ouvimos novos apelos para que as mulheres retornem às suas casas – apelos tidos como um retorno à tradição e como um progressivo salto adiante, mas que tenta, apesar de tudo, alistar as mulheres em um projeto nacional enquanto definem as fronteiras de inclusão nacional. A despopulação não é uma certeza, mas a fraude intelectual e os debates cientificamente questionáveis sobre gênero, raça e cultura estarão conosco não importa que caminho a população siga. “Para saber o que é a demografia, nós precisamos saber o que é a população,” escreveu o cientista social francês Herve Le Bras em The Invention of Populations [A Invenção das Populações]. “E é aí que começa o problema.”