por Leonard Read
Certa vez, alguém disse que não é que se tenha tentado praticar o cristianismo e ele tenha se mostrado insuficiente, mas que ele tenha sido tentado e considerado difícil – e então abandonado. Talvez essa fuga da moralidade seja responsável pelos apuros da liberdade, já que, claramente, o povo americano sente cada vez mais medo e foge cada vez mais de sua própria revolução de liberdade.
Parece-me que existem dois tipos de liberdade em sentido lato: o psicológico e o sociológico. O tipo psicológico – talvez o mais importante dos dois, mas que não é o principal assunto aqui – tem a ver com a libertação do homem de suas superstições, mitos, medos, imperfeições e ignorância. É claro que essa tarefa não tem fim, e merece uma alta prioridade.
Por outro lado, o aspecto sociológico da liberdade tem a ver com a imposição da vontade de um homem a outros homens. É triste que precisemos dispender tempo nessa parte do problema, pois trata-se de uma situação que não deveria existir. Por exemplo, é absurdo que eu imponha pela força minha vontade a você, ditando o que lhe cabe descobrir, inventar, criar, e qual seu local e tempo de trabalho, seu salário, e com quem você fará suas trocas. É igualmente absurdo que dois ou mesmo milhões, ou ainda qualquer instituição que esses milhões venham a criar – seja o governo ou outra – tentem, pela força, dirigir e controlar suas atividades produtivas ou pacíficas.
Refletindo sobre como a energia humana se manifesta podemos iluminar esta idéia. De modo geral, ela é pacífica ou belicosa, isto é, criativa ou destrutiva. Se minha mão é usada para pintar um quadro, escrever este livro, construir uma casa, plantar sementes, minha energia é manifestamente pacífica, criativa, produtiva. Mas se cerro meu punho e ataco você, minha energia é manifestamente belicosa e destrutiva.
O que quero dizer é que qualquer um de nós tem um direito moral de inibir as ações destrutivas de outros, e, pelo mesmo motivo, temos um direito de nos organizar (de formar um governo) para alcançar esse direito universal à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Mas nenhuma pessoa ou grupo de pessoas, não importa o quão organizadas, possui o direito moral de usar a coerção para dirigir e controlar as ações pacíficas, criativas e produtivas dos outros. Repetindo, não é preciso dedicar muito tempo e inteligência para estudar esse aspecto sociológico do problema da liberdade. Entretanto, um breve comentário sobre a situação americana pode demonstrar que um novo nascimento é hoje uma necessidade de primeira ordem.
Vamos pegar o fio da fundação histórica, iniciando com o ano de 1620, quando os peregrinos americanos desembarcaram em Plymouth. Aquela pequena colônia iniciou praticando o comunismo;. tudo o que era produzido por cada membro, não importando se muito ou pouco, era forçadamente (não-pacificamente) enviado para um celeiro comum e então dividido de acordo com a idéia de necessidade do governo. Em suma, os peregrinos americanos inauguraram a prática de um princípio que foi proposto por Karl Marx mais de dois séculos mais tarde como um ideal do Partido Comunista: "de cada um de acordo com suas capacidades, a
cada um de acordo com suas necessidades".
Houve um motivo bastante convincente pelo qual os peregrinos abdicaram dessa prática comunalística ou comunista: os membros estavam passando fome e morrendo porque, quando as pessoas se organizavam dessa maneira, o estoque do celeiro sempre se esgotava. A desoladora realidade da situação sugeriu que aquela teoria estava errada e, ainda bem, eles pararam para refletir. No terceiro inverno, quando se encontraram com o Governador Bradford, ele lhes disse: "Quando chegar a primavera, tentaremos uma idéia nova. Vamos abandonar essa noção comunística de 'a cada um de acordo com sua necessidade' e tentar a idéia de 'a cada um de acordo com seu mérito.' Quando chegar a primavera, cada um de vocês deverá ficar com o que produzir."
De acordo com a história, a chegada da primavera testemunhou que não apenas o pai ia trabalhar nos campos, mas também a mãe e os filhos. O Governador Bradford relatou posteriormente: "nenhuma carência generalizada ou fome houve entre eles desde aquele dia."
Foi por causa da prática desse princípio de propriedade privada que teve início na terra americana uma era de crescimento e desenvolvimento a qual mais cedo ou mais tarde levaria a idéias políticas revolucionárias. E levou ao que eu me refiro como a verdadeira revolução americana, a revolução que cada vez mais americanos estão abandonando, como se tivessem medo dela.
Texto extraído do capítulo 2 do livro Anything That’s Peaceful. Copyright 1998, The Foundation for Economic Education, Inc.