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Revoltada ficava a sua avó
By ordemlivre_admin
Criado 08/11/2008 - 13:18

por Pedro Sette Câmara

Passei as duas últimas semanas de julho viajando: estive em San Diego para participar da Cato University, e de lá fui direto para Buenos Aires, onde aconteceu o seminário Political and Economic Foundations of a Free Society [Fundamentos políticos e econômicos de uma sociedade livre], promovido pelo ESEADE e pelo Fund for American Studies. Os dois programas me trouxeram muitas surpresas positivas.

A primeira surpresa positiva foi a total ausência do clima de igrejinha. Apesar de ter interesse pelas palestras, eu esperava que o público já estivesse bastante de acordo com as idéias que seriam apresentadas. Ledo engano. Em San Diego, a platéia era muitíssimo variada, e variada em todos os sentidos. Conheci uma senhora judia que fugiu da Alemanhã na 2a Guerra e um senhor que lutou no front do Pacífico. Uma ex-promotora de Miami, com quem troquei figurinhas sobre balas perdidas. E também gente bem mais nova do que eu, que faz faculdade em áreas até distantes. Todos foram para ouvir e tirar suas próprias conclusões. O conteúdo das palestras era discutido durante os intervalos das refeições – e não simplesmente repetido e reconfirmado, com aqueles grupinhos de validação mútua em que as pessoas ficam exclamando "exatamente, exatamente!". Era possível, é claro, encontrar ali um oásis libertário, mas não dava para fugir dos questionamentos daqueles que eram realmente público ouvinte – o que é excelente. Não existe nada mais perigoso para a inteligência e talvez até para o caráter do que isolar-se num ambiente em que não há discordâncias, porque fica muito fácil perder o outro enquanto outro de vista. Não há nada pior do que adotar, ainda que inconscientemente, uma atitude como "o problema do mundo é que as pessoas não pensam como eu".

Cada um teve suas palestras favoritas. Gente da área de letras, como eu, sempre se beneficia de palestras um pouco mais técnicas sobre economia. Mas houve palestras para todos os gostos e necessidades – até mesmo uma palestra sobre a América Latina dada por Gabriela Calderón, editora do ElCato.org, baseada amplamente no livro Del buen salvaje al buen revolucionario, cuja resenha já foi publicada aqui no OrdemLivre.org.

Aliás, uma das melhores coisas foi conhecer gente de outros países e discutir a situação da liberdade internacionalmente – em comparação com o Equador, a Venezuela ou o Zimbábue, até que o Brasil vai muito bem. Os amigos de Yon Goicochea (ele mesmo não pôde ir) me explicaram como Hugo Chávez quer inviabilizar seu principal opositor. Rejoice Ngwenya exibiu as notas de 50 bilhões de dólares zimbabueanos (enquanto estávamos na Califórnia, o governo emitiu a de 100 bilhões), com a qual “dá para comprar uma coca-cola”, contou que o Zimbábue dispõe de três aviões comerciais para o transporte de passageiros e que Robert Mugabe freqüentemente “solicita” um deles. Se você acha ruim sofrer um atraso de meia hora em Congonhas por causa do AeroLula, pense num atraso de alguns dias no seu avião porque o presidente resolveu usá-lo.

Não mencionei ainda o Equador porque ele me serve de ponte para Buenos Aires. No evento do ESEADE e do FAS, com uma certa uniformidade etária (acho que meus 31 anos fizeram de mim o mais velho dos presentes), pude conhecer gente de diversos países da América Latina, inclusive um amigo de Gabriela Calderón, o qual repetiu-me a história de como seu programa de TV independente – uma debate de meia-hora sobre política – recebeu uma cartinha dizendo que cada crítica deveria ser "balanceada" por um elogio, ou o programa teria de sair do ar...

Mas isso, por pior que seja, não abalou nem a convicção e muito menos a tenacidade de ninguém. O que eu vi em todas aquelas pessoas da América Latina foi a consciência de que a liberdade e o estado de direito valem muito mais do que quaisquer delírios nacionalistas. Ninguém quer afirmações de grandeza, mas paz e prosperidade. Os demais jovens, com suas camisetas do Che Guevara – e, Deus do céu, como os portenhos gostam de Che Guevara – podem desprezar isso, e pode ainda haver quem acredite naquela história do jovem incendiário e do velho bombeiro, mas ali todos já tinham bom senso o suficiente para saber que é mais importante ter boas instituições do que falar alto em nome da própria identidade. Na verdade, a única questão de identidade constante vinha na forma de uma brincadeira, e quase sempre puxada por mim, relacionada ao fato de muitos anglo e hispano-americanos não incluírem o Brasil ao falar em “América Latina”.

As aulas também foram excelentes – houve alguma interseção com a Cato University, mas isso é culpa de quem foi aos dois eventos. As perguntas eram ótimas, as discussões também, e as pessoas eram bastante abertas. Ouso dizer que, aqui no Brasil, seria fácil imaginar que alguém fosse ficar deslocado num evento desses, sem se enturmar. Nada disso aconteceu em San Diego ou Buenos Aires.

Para quem, como eu, se interessa muito pela questão do “apelo romântico” (ou falta de) do liberalismo, só posso dizer uma coisa. Se tivermos algum sucesso e daqui a décadas olharmos para trás, não veremos jovens endurecidos de indignação contra os tiranos deste mundo, mas gente que, mesmo em lugares como o Zimbabwe, mesmo após ter recebido um “cala-a-boca” do governo equatoriano, manteve a perfeita tranqüilidade (e amabilidade) de quem sabia estar fazendo a coisa certa, e vai continuar fazendo a coisa certa, sem reclamar, por levar consigo – nas palavras de Cruz e Sousa – “este brasão augusto / do grande amor, da grande fé tranqüila.”


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