Ordem Livre

 

O Brasil vive um momento de transição bastante rico. Os sinais são evidentes. Nas artes, na imprensa, na literatura, na política, na economia, no debate público e até nas telenovelas. Quem imaginaria que um autor celebrado como Aguinaldo Silva teria a coragem de defender publicamente opiniões contra o consenso e usar seu trabalho como meio de difusão dessas idéias? Momentos de transição trazem consigo uma espontaneidade na ordem dos eventos assim como uma natural descoordenação inicial. Um dos desafios é articular os esforços por segmentos e assim desenvolver ações que permitam organizar uma agenda de maneira eficaz. No fim de semana passado em Porto Alegre o OrdemLivre.org convidou representantes de organizações liberais e indivíduos que partilham os mesmos princípios para, juntos, discutir propostas e estratégias de ação em quatro áreas: política, mídia e cultura, academia e think tanks. Estavam no evento representantes do Instituto Liberdade, Instituto de Estudos Empresariais (IEE), Instituto Mises Brasil, Instituto Federalista, Escola sem Partido, Libertários, Libertarianismo.com, Farol da Democracia, Movimento Endireita Brasil, Instituto Millenium, Friedrich Naumann Foundation e Instituto Internacional de Ciências Sociais, e do Instituto de Formação e Educação. Além do ótimo resultado das propostas elaboradas por área, fruto do produtivo trabalho e nível dos debates, três objetivos foram atingidos: a articulação dos liberais, o sentimento partilhado da necessidade de um trabalho conjunto e a certeza de que é preciso desenvolver medidas práticas de ação. O trabalho abnegado dos liberais brasileiros, sozinhos ou em grupo, permitiu uma elaboração isolada de idéias para promoção de princípios fundamentais para a vida em sociedade: liberdades e garantias individuais, paz, livre mercado, governo limitado. O compromisso com a liberdade não se reduz à mera difusão de uma palavra. A liberdade ganha força se alicerçada em princípios e valores caros ao seres humanos. Uma intervenção do governo – e penso, por exemplo, nas medidas protecionistas apresentadas publicamente como um dos instrumentos de contenção da crise econômica – não é apenas uma decisão política. É uma interferência nos diferentes modos de vida. Proteger um setor econômico é impedir que o consumidor (eu, você, nossos familiares, amigos etc.) tenha liberdade de escolha entre o produto nacional e o estrangeiro, que pode ter mais qualidade e custar menos. O desdobramento dessa intervenção não se resume a pagar mais ou menos por um bem, mas na terrível violação da liberdade individual. É o primeiro passo de um poder para interferir nos demais setores da vida em sociedade. Essa conduta não é nova e são irrefutáveis os exemplos históricos relativos ao destino de uma nação que permite tais retrocessos. O evento em Porto Alegre, realizado na capital gaúcha em razão do Fórum da Liberdade, foi o primeiro passo de uma articulação necessária, sensata e produtiva. Cada instituição e indivíduo presente às reuniões promovidas pelo OrdemLivre.org entendeu que se debatiam ali ações baseadas em princípios comuns e que cada um tinha importância e responsabilidade no projeto. O próximo passo é consolidar a agenda com base nas propostas apresentadas pelos grupos de ação e iniciar os primeiros projetos. Usar a teoria para conseguir agir da maneira mais eficiente. O momento de transição que citei no início do texto está em curso e é preciso aproveitá-lo. Sem lamentações estéreis sobre as dificuldades e obstáculos. Os inimigos da liberdade são muitos e os desafios são enormes. E é preciso manter a coragem e a responsabilidade demonstradas por cada um que esteve conosco em Porto Alegre. Para citar o nosso editor Diogo Costa, “havendo liberdade, a sociedade civil é capaz de organizar a si própria”.

Bruno Garschagen é mestre em ciência política na Universidade Católica Portuguesa, jornalista e Gerente de Relações Institucionais do OrdemLivre.org.

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