
Será que o livre mercado corrompe nosso caráter? (Parte 2 de 3)
12 de Abril de 2009 - por OrdemLivre.orgPela quarta vez a Templeton Foundation convida cientistas, acadêmicos e personalidades para dar sua opinião respeito das “grandes questões”. Dessa vez, a pergunta escolhida foi "Será que o livre mercado corrompe moralmente?".
O OrdemLivre.org traduz as respostas dadas pelos convidados da Templeton e ainda convida personalidades de língua portuguesa para dar sua opinião. Nessa semana, acompanhando a primeira bateria das respostas originais, temos o jornalista Reinaldo Azevedo.
● Reinaldo Azevedo, convidado do OrdemLivre.org: O habeas corpus e o tabelamento de preços
● Jagdish Bhagwati: Pelo contrário
● John Gray: Depende
● Michael Novak: Não. E, bem, sim
● Kay S. Hymowitz: Sim, demais
O habeas corpus e o tabelamento de preços
por Reinaldo Azevedo
O mercado não poderia responder pela corrosão do caráter porque o caráter, como o entendemos, é uma construção do próprio mercado.
Todas as línguas de cultura devem a origem dessa palavra, primeiro, ao grego e, depois, ao latim. “Caráter”, no idioma de Cícero, significava, originalmente, o ferro em brasa com que se marcavam os animais. Por metonímia, passou a indicar a marca que esse instrumento deixava. O tempo e a metáfora se encarregaram de fazer com que a palavra designasse o conjunto de valores cultivados por um indivíduo. Esse conjunto se torna a sua marca particular, aquilo que o distingue, uma moral privada estampada a fogo na consciência. Só pode haver “caráter” se há indivíduo.
Por que sustento que a sociedade de mercado inventou o caráter? Porque ela é uma condição necessária, embora não suficiente, da liberdade. E não pode haver individuação onde não há escolha. Não é por acaso que as mais eloquentes fábulas antiutópicas — como Nós (Ievguêni Zamiátin), Admirável mundo novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), O processo (Kafka) e O zero e o infinito (de Arthur Koestler, a melhor de todas elas) — flagrem justamente o indivíduo contra o “ser coletivo”, que é uma invenção do Estado. Trata-se do contraste entre o homem de caráter e aqueles que se fazem meros funcionários de uma ordem cuja única preocupação é garantir a própria sobrevivência.
Os dias que correm, depois da crise financeira que varreu o mundo, são especialmente propícios à hostilização do mercado, que propiciaria a ganância. Ambições desmedidas, típicas das sociedades capitalistas, teriam conduzido o mundo à beira do abismo. Não fosse a vontade de lucrar, não fosse a vã cobiça, dizem os sacerdotes das catacumbas do estatismo, tudo seria diferente.
Bem, nem vou me ocupar — quer porque óbvio, quer porque outros já o fizeram — de demonstrar que o ciclo de prosperidade econômica que antecedeu a crise tirou milhões de pessoas da miséria e forneceu o capital necessário para a revolução tecnológica, que não ficou restrita ao setor financeiro. Os inimigos do capitalismo detestam constatar que o dinheiro de um “maldito especulador” financia o desenvolvimento de vacinas e de máquinas agrícolas, que salvam a vida de milhões. Na sua fantasia, isso tudo é obra da benemerência e do humanismo abstrato. Seria igualmente ocioso lembrar aqui como andou o caráter nas sociedades que decidiram abolir o mercado ou que houveram por bem submetê-lo a um rígido controle do Estado. Os vários fascismos e as várias faces do socialismo real — e só houve o real, não é? — deixaram um rastro de mortes, de desolação, de desastres.
O que corrói o caráter — na verdade, o destrói — é a tirania. Chamo de “tirania” a impossibilidade de se organizar qualquer forma de resistência à vontade oficial, quando os próprios indivíduos já não podem mais exibir seus traços distintivos, suas marcas particulares, porque perderam a vontade da autonomia. Quem chegou mais perto da plena caracterização dessa sociedade foi o teórico comunista Italiano Antonio Gramsci. Para ele, o lugar que Maquiavel reservara ao “Príncipe” seria ocupado por um partido político — no caso, o Partido Comunista —, que ele chamava “Moderno Príncipe”.
Nenhum daqueles antiutopistas que citei acima chegou aos pés de Gramsci quando ele relata o papel que o “o partido” deveria ocupar na sociedade: “O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.”
Nos países campeões da corrupção, o que se tem é mercado de menos, não mercado demais. Em alguns casos, e o Brasil tem larga experiência no assunto, gangues se apropriam de estruturas estatais para impor a sua vontade e cuidar dos seus interesses particulares. O regime é só uma derivação pervertida da economia de mercado. A fraude numa licitação ou o sobrepreço numa obra pública, por exemplo, têm origem na corrupção do caráter do agente público, que pode fraudar as regras sob o abrigo da lei.
Rotineiramente, o Estado, sob o pretexto de moralizar a sociedade de mercado, inventa o pecado para, depois, definir a penitência dos agentes privados que ele se encarregou de perverter. E o faz oferecendo ainda mais controle estatal e, pois, mais chances e instâncias de mediação para o exercício da corrupção. Entendo que a tarefa dos homens livres é lutar para conter os apetites deste ente pantagruélico. É fato que pagamos um preço por viver em sociedade. Mas tem de ser um preço justo. O melhor instrumento para manter a détente entre indivíduo e estado é a sociedade da regulação: agências independentes do governo e do mercado — e vigiadas por ambos — devem se encarregar de fazer valer a lei... de mercado!
A idéia de que o mercado corrompe o caráter nasce da suposição de que possa haver um sistema perfeito, capaz de livrar os homens de suas paixões, levando-os, então, à plena liberdade. A história demonstra ser essa uma fantasia liberticida. “Liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome”, exclamou certa mocinha a caminho da guilhotina, para satisfazer a sede de sangue do justiceiro Robespierre. Ademais, lembremo-nos de uma frase de Goethe, que parece sintetizar à perfeição o totalitarismo: “Ninguém é tão desesperadamente escravizado como os que acreditam que são livres”. Os regimes totalitários, como aquele imaginado por Gramsci, querem dar essa impressão de liberdade.
Livre mesmo é só o homem que sabe que tem de lutar para conter todos os apetites que querem escravizá-lo. E essa é uma tarefa da consciência individual, não do Estado.
E encerro com uma constatação e um enigma. A primeira medida de um regime de força é suspender o habeas corpus; a segunda é tabelar preços. Tenho a certeza de que isso quer nos dizer alguma coisa. O que será?
Reinaldo Azevedo foi redator-chefe das revistas Primeira Leitura e Bravo!. Publicou os livrosContra o consensoe No país dos petralhas. Atualmente, mantém um blog no site da revista Veja.
Pelo contrário
por Jagdish Bhagwati
Posso garantir, por experiência pessoal, que, se você tentar falar sobre o livre mercado nos campi universitários de hoje, você será soterrado por uma avalanche de críticas à globalização. A oposição do corpo docente e dos estudantes à expansão dos mercados internacionais advém, em geral, de um senso de altruísmo. Ela se origina de sua preocupação a respeito de questões sociais e morais. Em termos simples, eles acreditam que a globalização carece de uma face humana. Tenho uma visão contrária. A globalização, sustento, leva não apenas à criação e à distribuição da riqueza, como também a resultados éticos e a um melhor caráter moral de seus participantes.
Muitos críticos acreditam que a globalização provoca retrocessos na agenda social e ética, como a redução do trabalho infantil e da pobreza em países pobres e a promoção da igualdade entre os gêneros e da proteção ambiental em todos os lugares. Contudo, quando estudei essas e outras questões em meu livro In Defense of Globalization, descobri que os verdadeiros resultados eram o oposto do que se temia.
Por exemplo, muitos acreditavam que os agricultores pobres reagiriam às melhores oportunidades econômicas apresentadas pela globalização tirando seus filhos da escola e colocando-os para trabalhar. Considerada assim, a expansão do livre mercado atuaria como uma força maligna. Mas descobri que, na verdade, ocorria o contrário. Acontecia que, em muitas circunstâncias, as rendas mais altas obtidas em virtude da globalização — a remuneração crescente dos plantadores de arroz no Vietnã, por exemplo — estimulavam os pais a manterem as crianças na escola. Afinal, não precisavam mais da diminuta renda que o trabalho de uma criança adicional podia proporcionar.
Ou considere a igualdade sexual. Com a globalização, as indústrias que produzem bens e serviços comercializados defrontam-se com competição internacional intensificada. Essa competição reduziu o imenso desnível, em muitos países desenvolvidos, entre o salário pago a homens e a mulheres com as mesmas qualificações. Por quê? Porque as empresas que competem mundialmente logo descobrem que não podem sustentar a satisfação de seus preconceitos machistas. Sob pressão para reduzir custos e para operar com mais eficiência, elas progressivamente substituem a mão-de-obra masculina, mais cara, por mão-de-obra feminina, mais barata, aumentando, desse modo, os salários das mulheres e diminuindo os salários dos homens. A globalização ainda não produziu a igualdade salarial, mas certamente diminuiu o desnível.
Já existem muitas provas de que Índia e China, dois países com problemas gigantescos de pobreza, foram capazes de crescer de maneira tão acelerada tirando proveito do comércio e de investimentos estrangeiros e que, fazendo isso, reduziram a pobreza dramaticamente. Eles ainda têm um longo caminho a percorrer, mas a globalização permitiu que melhorassem as condições materiais de centenas de milhões de pessoas. Alguns críticos taxaram a ideia de atacar a pobreza por meio do crescimento econômico de estratégia conservadora de “conta-gotas”. Eles evocam imagens de nobres obesos e glutões e da burguesia comendo pernis de carneiro, enquanto os servos e os cães debaixo da mesa alimentam-se de restos e de migalhas. Na verdade, o foco no crescimento é mais bem descrito como uma estratégia ativista de “avanços”. Economias em crescimento proporcionam empregos lucrativos aos pobres e reduzem a pobreza.
Mesmo quando admitem que a globalização geralmente ajuda na realização de certos fins sociais, alguns críticos continuam sustentando que ela corrompe o caráter moral. Um livre mercado em expansão, dizem, amplia as regiões em que lucros são buscados, e a busca de lucro torna as pessoas egoístas e corrompidas. Mas isso não é nem um pouco plausível. Considere os burgueses calvinistas descritos por Simon Schama em sua história da Holanda. Eles fizeram sua fortuna com o comércio internacional, mas cultivavam seu altruísmo e não seus apetites pessoais, exibindo o que Schama apropriadamente chamava de “constrangimento da riqueza”. Comedimento semelhante pode ser visto nos jains de Gujerat, o estado indiano de onde veio Mahatma Gandhi. As riquezas que os jains colhiam de suas atividades comerciais eram atreladas ao seu valor, e não o contrário.
Quanto à influência que a globalização continua a ter no caráter moral, deixem-me citar os sentimentos maravilhosos de John Stuart Mill. Como ele escreveu em Princípios de economia política, de 1848:
As vantagens econômicas do comércio são superadas em importância por aquelas de seus efeitos, que são intelectuais e morais. Dificilmente será possível superestimar o valor, na baixa condição atual do desenvolvimento humano, de colocar seres humanos em contato com pessoas diferentes deles e com formas de pensar e de agir distintas daquelas com as quais estão acostumados. (...) Não há país que não precise tomar emprestado de outros não apenas artes e práticas específicas, mas traços de caráter essenciais em que seu próprio tipo é inferior. (...) Pode ser dito sem exagero que a grande extensão e o rápido aumento do comércio internacional, sendo a principal garantia da paz mundial, são a grande proteção permanente do progresso ininterrupto das ideias, das instituições e do caráter da raça humana.
Na economia global contemporânea, observamos continuamente sinais do fenômeno que Mill descreveu. Quando as multinacionais japonesas espalharam-se nos anos de 1980, seus executivos homens levaram suas esposas para Nova York, Londres e Paris. Quando essas mulheres japonesas tradicionais viram como as mulheres eram tratadas no Ocidente, absorveram ideias a respeito dos direitos das mulheres e da igualdade. Quando retornaram ao Japão, tornaram-se agentes da reforma social. Em nossos dias, a televisão e a internet desempenham uma função importantíssima na expansão de nossa consciência social e moral para além de nossas comunidades e Estados nacionais.
Num trecho famoso, Adam Smith escreveu sobre “um homem da humanidade na Europa” que não “dormiria hoje” se “fosse perder seu dedo mindinho amanhã”, mas que “roncaria com a mais profunda tranquilidade” se uma centena de milhões de seus irmãos chineses fosse “repentinamente engolida por um terremoto, ‘porque’ ele nunca os havia visto”. Para nós, os chineses não são mais invisíveis, vivendo além da fronteira do que David Hume chamava de círculos concêntricos de nossa empatia. O terremoto na China no último verão, cujas consequência trágicas foram instantaneamente transmitidas em nossas telas, recebeu não a indiferença do resto do mundo, mas, sim, a empatia e um senso profundo de obrigação moral em relação às vítimas chinesas. Foi um momento memorável da globalização.
Jagdish Bhagwati é professor universitário de economia e de direito na Columbia University, senior fellow de economia internacional no Council on Foreign Relations e autor de In Defense of Globalization. Escreve sobre políticas públicas e comércio internacional.
Depende
por John Gray
O livre mercado corrompe alguns aspectos do caráter, enquanto aprimora outros. Quanto ao resultado ser bom, no cômputo geral, isso depende do modo como se concebe uma vida boa. Também depende muito da crença em que outros sistemas econômicos sejam superiores. A pergunta pode ser respondida somente ao comparar alternativas realistas e ao compreender como sistema diferentes promovem tipos divergentes de caráter humano.
É importante evitar pensar em termos de modelos ideais. Nos últimos anos, tem havido uma tendência de pensar que o livre mercado surge espontaneamente quando a interferência do Estado na economia é eliminada. Mas o livre mercado não é simplesmente a ausência de governo. O mercado depende de sistemas jurídicos que determinem o que pode ser comercializado como um bem e o que não pode. A escravidão é proibida nas economias de mercado modernas, assim como a chantagem e a pornografia infantil. O livre mercado sempre envolve algumas coerções morais desse tipo, que são garantidas pelos governos. Em termos mais gerais, o livre mercado apoia-se em direitos de propriedade, que também são impostos — e com frequência criados — pelo governo.
O livre mercado tal como existiu na Inglaterra vitoriana surgiu não porque o Estado retirou-se da economia, mas sim porque o poder estatal foi usado para privatizar terras que tinham estado sob variadas formas de propriedade comum ou sob nenhum tipo de propriedade. A economia laissez-faire que existiu por algumas décadas na Inglaterra do século XIX foi possibilitada pelas Leis de Cercamento dos Campos. Essas leis, promulgadas pelo parlamento a partir da segunda metade do século XVIII, deslocaram os trabalhadores agrícolas do campo e criaram a classe trabalhadora industrial que foi a base humana do livre mercado. Mas, com a ampliação dos direitos políticos democráticos no fim do século XIX e início do XX, esses trabalhadores começaram a exigir que a atividade econômica se sujeitasse a vários tipos de regulação. O resultado final foi a economia de mercado regulamentada que existe na Inglaterra e em muitos outros países atualmente.
Uma perspectiva histórica é útil porque nos permite perceber que sistemas econômicos são coisas vivas. Na vida real, o livre mercado raramente funciona de acordo com os modelos construídos por economistas. Há surtos de crescimento e bolhas, quebras e crises. É apenas nos livros-texto de economia que os mercados se auto-regulam. Nesse contexto, a relação entre economia e ética pode ser observada com mais clareza. Os traços de caráter mais recompensador pelo livre mercado são a ousadia empresarial, a disposição para especular e jogar e a capacidade de agarrar e de criar novas oportunidades. Vale a pena ressaltar que esses não são os traços mais louvados por moralistas conservadores. A prudência, a parcimônia e capacidade de prosseguir pacientemente em um padrão familiar de vida podem ser qualidades admiráveis, mas não costumam levar ao sucesso no livre mercado.
Na verdade, quando os mercados estão altamente voláteis, esses traços conservadores podem muito bem ser o caminho para a ruína. Adaptar as próprias habilidades, migrar, mudar de carreira — esses atos arriscados ajudam as pessoas a sobreviver e a prosperar em economias de livre mercado. Mas esse tipo de comportamento, de correr riscos, não é necessariamente compatível com valores tradicionais que enfatizem o valor de laços humanos duradouros.
Adam Smith, um dos fundadores da economia de livre mercado, também era um crítico perspicaz da sociedade comercial. Smith temia que a economia de mercado que surgia em sua época deixasse os trabalhadores sem rumo em cidades carentes de comunidades coesas. Como ele notava, o dinamismo subversivo do mercado não pode ser restrito ao próprio mercado. O livre mercado exige um alto grau de mobilidade e uma arraigada prontidão para abandonar relações que não sejam mais lucrativas. Uma sociedade em que as pessoas estão constantemente em movimento dificilmente será uma sociedade de famílias estáveis ou notavelmente submissa às leis.
Afinal, a resposta a essa pergunta depende de como se concebe uma vida boa. O que um moralista tradicional vê como um colapso da família pode ser visto por um liberal como o exercício da autonomia individual. Para o liberal, a escolha individual é o ingrediente mais vital de uma vida boa, enquanto os conservadores podem considerar mais importante a preservação de instituições valiosas. Quanto às sociedades ocidentais contemporâneas, eu tendo a uma visão liberal. Mas o ponto importante não é tanto o de qual dessas concepções é adotada. Na verdade, é esse: embora o livre mercado recompense alguns traços morais, ele também destrói outros. Se ele liberta a escolha individual, ao mesmo tempo corrompe algumas virtudes tradicionais. Não se pode ter tudo.
Os perigos morais do livre mercado não significam de forma alguma que outros sistemas econômicos sejam melhores. Sistemas de planejamento central corromperam o caráter muito mais danosamente e com menos benefícios em termos de eficiência e de produtividade. As economias planejadas da ex-bloco soviético apenas funcionaram — se é que chegaram a funcionar — porque eram infiltradas por mercados negros e cinzas. A corrupção era onipresente. No modelo marxista, a anarquia alimentada pela cobiça do mercado é substituída pelo planejamento baseado no altruísmo. Mas a vida real nas sociedades soviéticas era mais parecida com uma caricatura extrema do capitalismo laissez-faire, um ambiente caótico e devastador em que cada pessoa lutava para não afogar. Homo homini lupis — o homem é o lobo do homem — era a regra, e o altruísmo, a exceção. Nessas condições, as pessoas com as capacidades de sobrevivência mais altamente desenvolvidas e com menores escrúpulos morais saíam-se melhor.
Nenhum sistema econômico pode aprimorar cada aspecto do caráter moral. Todos apoiam-se, em alguma medida, em estímulos que são moralmente questionáveis. A cobiça e a inveja podem ser vícios, mas também são estímulos econômicos. Um sistema econômico é bom na medida em que aproveite as imperfeições humanas em favor do bem-estar humano. A escolha não é entre modelos abstratos, como o livre mercado e o planejamento central. No mundo real da história, nenhum dos dois existiu na forma imaginada por seus defensores. Não, a verdadeira escolha é entre combinações diferentes de mercado e de regulação, nenhum dos quais nunca será inteiramente benigno, em termos morais, em seus efeitos. Uma combinação sensível não pode ser obtida aplicando um modelo ideal de como a economia deveria funcionar. Diferentes combinações serão melhores em diferentes contextos históricos. Mas uma coisa é clara: uma economia de mercado moderna não pode existir sem certo nível de corrupção moral.
John Gray é professor emérito da London School of Economics. Entre seus últimos livros, estão False Dawn: The Delusions of Global Capitalism (Granta) e Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia (Penguin).
Não. E, bem, sim
por Michael Novak
Quando do nascimento dos Estados Unidos, a maioria das sociedades organizava-se com base ou em uma aristocracia territorial ou em um poderoso grupo militar. Os fundadores dos Estados Unidos rejeitavam esses modelos e sustentavam tenazmente que uma nova sociedade, edificada sobre o comércio livre, engendraria um conjunto de valores mais elevado, assim como se mostraria mais segura e mais compromissada com o Estado de Direito. Essa sociedade se dedicaria não à busca de poder, mas, sim, à criação de fartura. Como Alexander Hamilton observou no Federalista nº 12, “a prosperidade do comércio é agora percebida e reconhecida por todos os estadistas esclarecidos como a fonte de riqueza nacional mais proveitosa e produtiva e, coerentemente, tornou-se objeto primordial de suas preocupações políticas”. O comércio desviaria os homens de fontes anteriores de divisão e de facção. Suas paixões se voltariam de causas políticas à atividade no mercado, e o espírito de cooperação necessário ao livre mercado gradualmente vincularia suas lealdades à república maior.
Uma sociedade comercial também seria muito, muito melhor para os pobres, e teria um efeito benéfico na moralidade pública e pessoal. Por meio de seu estudo atento da história, os fundadores dos Estados Unidos aprenderam que uma sociedade baseada no poder militar tende a tornar-se suscetível e errática — facilmente levada a travar guerras por orgulho ferido —, em grande e repetido prejuízo dos pobres. Gerações após gerações tinham observado escasso progresso em relação à pobreza, afirmava o filósofo escocês David Hume. Guerras de honra e de vingança e disputas entre imperadores, monarcas e barões repetidamente anulavam quaisquer curtos passos de progresso dados pelos pobres.
Quanto às aristocracias territoriais, suas cortes eram dadas em excesso a diversões, a entretenimentos, a seduções e à decadência. Embora muitos barões e condes cavalheirescos fossem bons soldados e organizassem suas próprias tropas, suas vidas eram em geral ociosas. Eles viviam facilmente da gordura de suas propriedades em expansão e do trabalho dos camponeses. Treinavam tropas para consumir seus excedentes agrícolas, que estradas primitivas e a ausência de Estado de Direito (fora das grandes cidades) impediam de tornarem-se fonte de comércio produtivo.
Organizar uma nova sociedade sobre a base da aristocracia ou dos militares não seria seguro para a república. Uma república precisaria de homens independentes, feitos por si mesmo, inventivos, criativos, sem medo de pegar no batente, orgulhosos de trabalhar duro, afeitos a inovações e determinados a encontrar maneiras melhores (frequentemente menos onerosas) de fazer as coisas. A independência e a inovação, levando a um bem comum em constante progresso, seriam os frutos de uma sociedade comercial, ao menos para uma república livre como os nascentes Estados Unidos.
Os fundadores pensavam, além disso, que uma sociedade erguida sobre o comércio teria de estabelecer a responsabilidade individual diante da lei. Sem uma sociedade submissa às leis, apoiando-se em cortes para impor contratos, como homens e mulheres envolvidos no comércio poderiam correr grandes riscos antes mesmo de receberem pagamento integral por seus esforços? Navios enviados de New England para trazer chá da Ásia tinham de ser pagos antes que pudessem voltar e vender sua mercadoria. Os piratas teriam de ser enfrentados, não apenas pela lei escrita, como também pela lei imposta por armas sobre o mar alto (tais como as campanhas de Jefferson contra os piratas de Barbary). Não surpreende que o lema de Amsterdã, então uma das grandes capitais comerciais do mundo e objeto da admiração dos fundadores, era Commercium et Pax: o comércio promove a paz. O comércio é o que vizinhos trocam entre si pacificamente, e não o que simplesmente capturam em guerras.
Nossos antepassados acreditavam que uma sociedade comercial instruiria todos os seus integrantes no trabalho duro, na regularidade e na inovação. Também ensinaria os americanos a serem corajosos na aventura (como os capitães do mar de New England), modestos em suas expectativas de ganhos e parcimoniosos em seus repetidos reinvestimentos de ganhos em nome da capitalização futura. Essas atividades seriam uma alternativa ao consumo saliente da antiga aristocracia territorial. Uma sociedade comercial encorajaria um povo honesto, responsável, abnegado e orientado para o futuro. Um povo desse tipo é particularmente necessário para tornar repúblicas livres submissas às leis e prósperas.
Como as raízes da sociedade comercial — hábitos de inovação e de invenção, a santidade do trabalho duro, o foco no futuro — decorrem de imperativos das religiões judaica e cristã, não foi preciso mais do que um passo para que os fundadores dos Estados Unidos reconhecessem o papel crucial da religião e da moralidade na repressão a instintos comerciais, mantendo-os dentro de limites e afastando-os da auto-destruição. “Há muitas coisas que a lei não impede que os cidadãos façam que a religião dos americanos impedem-nos de fazer”, Tocqueville observou com aprovação.
Por outro lado, os êxitos de uma república comercial também produzem, com o tempo, várias influências debilitantes que corrompem a força moral das sociedades. Gerações mais jovens tomam como dada a prosperidade obtida pelos sacrifícios de seus antepassados. Alguns querem fugir da disciplina de uma república comercial, e outros desprezam as maneiras contidas e os costumes de seus ancestrais. Gerações habituadas ao trabalho duro e à auto-disciplina podem dar lugar a novas gerações que ouvem outras músicas soprando com os ventos e sonham com rebeliões, preferindo deleitar-se com o ócio a envolver-se com o trabalho desprezível. Uma geração comprometida com a poupança para o futuro é substituída por uma geração que vive imprudentemente apenas para o hoje.
Desse modo, os próprios êxitos de uma república comercial tendem a destruir o vigor moral dos jovens. O sociólogo Daniel Bell denominou essas cíclicas mudanças de direção da roda de “contradições culturais do capitalismo”. Em outras palavras: vem uma moral rigorosa, mas, com o tempo, vem uma moral relaxada.
Podemos observar por todos os lados a oportunidade de acelerar a decadência moral. Mas essa decadência moral é apenas um resultado possível, não um resultado necessário. Muito bem avisados contra isso, podemos fazer esforços especiais para superar suas atrações. Dessa maneira, a maior tarefa de uma sociedade comercial torna-se o aprofundamento moral e cultural, o retorno às raízes espirituais, o que nossos antepassados chamavam de “Grande Despertar”.
De acordo com a avaliação do economista ganhador do Prêmio Nobel Robert Fogel, os Estados Unidos estão agora na lenta ascendência do Quarto Grande Despertar. Ele se caracteriza por um retorno aos fundamentos, por uma ênfase na família e por um convite aos jovens para desenvolverem os hábitos de educação pessoal da vontade e da mente que são as melhores garantias de um caráter sólido. Esses jovens são a maior esperança para a vitalidade de nossas liberdades republicanas e para a criatividade comercial.
Michael Novak é o George Frederick Jewett Scholar em religião, filosofia e políticas públicas no American Enterprise Institute. Seus mais de vinte e cinco livros incluem The Spirit of Democratic Capitalism e, mais recentemente, No One Sees God.
Sim, demais...
por Kay S. Hymowitz
Os críticos observam com razão que o livre mercado destrói os arranjos tradicionais e locais de que as pessoas dependem para ensinar e sustentar a moralidade. Considere principalmente a experiência das crianças. Elas aprendem a moralidade primeiro com suas famílias, com as quais estão emocionalmente muito ligadas. O amor vincula as crianças às convenções morais e suscita emoções morais essenciais como a simpatia e a culpa. Em uma sociedade pré-industrial, esses hábitos morais são reforçados ainda mais pela tribo ou pela comunidade, assim como pelas instituições religiosas e pelas lendas folclóricas. A criança em desenvolvimento está envolvida por uma espécie de conspiração de professores morais, demonstrando lições de caráter por palavras e (com menos segurança) por atos.
As economias de mercado enfraquecem essa conspiração cultural de três fortes maneiras. Em primeiro lugar, elas introduzem novidades, que desafiam hábitos culturais e verdades morais estabelecidos. Em segundo lugar, elas incitam desejos individuais de modos que podem facilmente debilitar a auto-disciplina e as obrigações morais que fazem o livre mercado prosperar. (Como o sociólogo Daniel Bell notoriamente sustentou, os mercado podem acabar canibalizando sua própria infra-estrutura moral.) E, em terceiro lugar, ao progredir, as economias de mercado tornam-se mais propensas a tratar as crianças que ainda têm de ser socializadas como atores autônomos, parecidos com adultos, e não como dependentes imaturos. Elas frequentemente transformam o aluno dócil a obrigações morais em um aluno cético, até mesmo resistente.
Dois dos mais influentes novos produtos do século XX, o automóvel e a televisão, ilustram perfeitamente o potencial do mercado de diluir o consenso moral e as lealdades pessoais. Ao exportar pessoas íntimas e importar estranhos, o carro reduziu a força da comunidade local e de suas exigências morais. Ao levar os pais a empregos longe de casa, ele acelerou a separação entre trabalho e vida familiar. De fato, a evolução do mercado foi a causa direta das “esferas separadas” que colocaram as mães na direção da vida doméstica e os pais em distantes locais de trabalho.
O carro também espalhou os membros familiares (tios e tias na Califórnia, avós na Flórida) que anteriormente poderiam ter amparado o desenvolvimento do senso moral da criança. Ele aumentou as oportunidades de anonimato, o que tornou mais fácil fugir da vergonha e do constrangimento a respeito de violações do comportamento moral, e permitiu que os indivíduos, especialmente adolescentes, evitassem os olhos judiciosos dos adultos. No início do século XX, um juiz da corte da infância e da juventude, observando o uso inesperado que os jovens estavam fazendo da nova invenção, resmungou que o veículo sem cavalos não passava de um “prostíbulo sobre rodas”.
A ruptura cultural provocada pela televisão, e especialmente pela propaganda, tem sido ainda mais perturbadora do que aquela do carro. Antes do advento da telinha, as famílias podiam contar com fazer a maior parte de seu trabalho moralizador livres de intrusões comerciais. A vida familiar podia ser imaginada como um “refúgio em um mundo sem coração”, nas palavras do sociólogo Christopher Lasch. Vendedores podiam ir a River City, mas tinham de bater à porta e mostrar seu uniforme e instrumentos ao guarda doméstico, normalmente as mães. A televisão permitiu aos vendedores passar ao largo dos pais e sentar-se ao lado das crianças sem moral, tentando-as com prazeres contra os quais tinham poucas defesas. Em termos mais genéricos, a televisão usa fantasias de vingança, de lesões violentas, de licenciosidade sexual e de excesso material para seduzir observadores, novos e velhos.
É claro, hoje a internet está usurpando a condição desfrutada por muito tempo pela televisão como patrocinador principal do hedonismo, do materialismo e do egoísmo anárquico. Se a transmissão televisiva tinha censores que inabilmente expressavam um consenso cultural sobre o discurso público aceitável, a rede mundial de computadores não conhece limites. Além disso, assim como o automóvel deu a pessoas provincianas novas oportunidades de anonimato, a internet permite que as crianças fujam das limitações de sua condição. Nada simboliza melhor a tendência do mercado de transformar as crianças em pseudo-adultos, de destruir a autoridade dos pais e de promover o anonimato que oculta a vergonha, do que uma menina de 13 anos de idade que marca um encontro com um homem de 40 anos em um sala de bate-papo na internet enquanto os pais dela acham que ela está fazendo seu dever de casa.
Mas nem tudo vai mal. Embora o mercado tenha minado o poder de normas comunitárias e colocado a responsabilidade única pela educação moral nos ombros dos pais isolados, enquanto bombardeia as crianças com coisas como Grand Theft Auto e Paris Hilton, ainda tem de nos trazer Gomorra. Nos Estados Unidos, os indicadores da saúde moral da juventude, como níveis de violência e de promiscuidade e atitudes rebeldes contra adultos, diminuíram nas últimas décadas mesmo que a mídia eletrônica tenha aumentado seu alcance de mercado.
Por quê? Uma razão é que os pais de classe média reagiram aos alarmes de sirene do mercado intensificando sua vigilância. Seus esforços foram às vezes ridículos, e por boas razões. Mas a super-vigilância dos pais é uma resposta compreensível aos transtornos que vêm com inovações do livre mercado e, na verdade, evidencia a flexibilidade, ao menos na classe média, da família burguesa, que se desenvolveu em resposta ao capitalismo. Em comunidades em que as mães começaram a trabalhar, parentes menos próximos migraram e estranhos e carros perambulam, os pais continuam a supervisionar as crianças por meio da utilização de telefones celulares, programas extracurriculares, substitutos como tutores e professores e, infelizmente, programas de espionagem na internet e mesmo aparelhos de GPS.
A relativa saúde moral da juventude também foi favorecida, é preciso dizer, pelo estímulo incansável do livre mercado à auto-disciplina. Para ter sucesso na economia de conhecimento atual, os jovens compreendem que têm de destacar-se na escola. Apesar das tentações do consumismo, a classe média e crianças imigrantes ambiciosas crescem sabendo que a educação é crucial para a manutenção ou a melhora de sua condição e que a competição na economia de conhecimento é aguda. Em tempos anteriores, as crianças imbuídas da ética protestante realizavam seus afazeres domésticos e preocupavam-se com as letras p e q. As crianças de hoje vão a cursos preparatórios e carregam mochilas que pesam quilos.
Então isso significa que os críticos do mercado estavam errados? Não exatamente. A celebração do hedonismo e da autonomia realizada pelo livre mercado teve seus efeitos previstos sobre aqueles com menos capital cultural — os pobres e, mais recentemente, a classe trabalhadora. Em comunidades de baixa renda, o ataque a normas de auto-contenção e de fidelidade nas relações pessoais minou tanto a família extensa quanto a nuclear. Em muitas dessas comunidades, o divórcio e filhos fora do casamento estão se tornando a regra. O trabalho de moralizar a próxima geração em uma economia desenvolvida de livre mercado é difícil sob as melhores condições. Para mães solteiras em comunidades de baixa renda, onde as escolas são caóticas e os homens responsáveis são raros, pode ser quase impossível.
Kay S. Hymowitz é William E. Simon Fellow no Manhattan Institute e editora colaboradora no City Journal. Seu livro mais recente é Marriage and Caste in America: Separate and Unequal Families in a Post-Marital Age.