
A lei contra a língua
24 de Maio de 2009 - por Pedro Sette Câmara“DVD” é uma palavra da língua portuguesa. É uma entrada no dicionário Houaiss. O mesmo vale para “compact disc”, e até mesmo “off-line”, cuja primeira acepção é de advérbio. “Problema” também é uma palavra da língua portuguesa, mas com ela o leitor não se surpreende. Só que entre ela e os demais exemplos há a mesmíssima relação: são palavras estrangeiras incorporadas ao português. “Problema” é grega, assim como “diastema” e todos os nomes masculinos portugueses terminados em -ema. A diferença é que “DVD” foi incorporada há pouco tempo, e “problema” até passou pelo latim antes de chegar a nós. Tirando o fato de que o “problema” grego é neutro e o português é masculino, até a pronúncia, supõe-se, é a mesma, assim como o sentido.
Não consigo nem imaginar o problema que surgiria se algum político quisesse fazer uma lei contra a importação de palavras há alguns séculos. Não teríamos diálogo. Porque o diálogo é puro grego, é um “diá” (entre) + “logos” (discurso), um discurso entre duas pessoas. Perdeu pelo menos o som sibilante final que tem no grego. Mas tudo bem: por acaso nós falamos “dividí”? Não, a gente fala “devedê”. Tomamos a palavra e damos, de certo modo, uma contribuição.
Aqui no Rio, o vereador Roberto Monteiro (do PC do B; e não, também não estou surpreso) propôs uma lei, aprovada no ano passado, e sancionada pelo alcaide Eduardo Paes na semana passada, obrigando o uso de tradução em propagandas que contenham palavras estrangeiras.
Admito, como alguém que ama a língua, e porque amar uma coisa é desejar sua estabilidade, que eu mesmo não incorporo palavras estrangeiras quando sei de uma palavra portuguesa que sirva ao meu propósito. Agora, nunca pensei em transformar o que considero mau gosto em crime, até porque o desconhecimento de certas palavras às vezes faz brotar novas expressões... em português. Por exemplo, hoje em dia é muito comum ouvir falar em “vergonha alheia”, e eu nunca percebi o que essa expressão pode conter que já não estivesse no bom e velho “constrangimento”.
O leitor pode observar que a Lei Monteiro (chamemo-la assim) se refere a propagandas, letreiros. A matéria da Folha que me informa disso sugere como exemplos palavras como “sale” e “delivery”, que não constam do Houaiss, e “off”, que consta, ainda que não na acepção de “desconto”. Vejam aí a complicação. Palavra estrangeira é aquela que não consta do dicionário, ou é aquela que tem origem estrangeira recente, está dicionarizada, mas não na acepção pretendida? Pior ainda, existem palavras que usamos e que não estão lá. Outro dia mesmo eu quis escrever “gregaridade”. No Houaiss não consta. Mas a editora da PUC-Rio já usou a palavra no título de um capítulo de uma tradução de Nietzsche. Senti-me legitimado. Sem contar que muitos de nós que trabalhamos com textos costumamos buscar apoio para os usos das palavras... no Google.
Diz o vereador que pretende “preservar a cultura do país e facilitar a compreensão das propagandas por quem não conhece outros idiomas além do português”. Realmente, a cultura do país é algo tão morto que precisa ser preservado pelo formol da lei. E agora é o “delivery” da pizzaria que vai arrombar de vez a tumba desse precioso cadáver. Cultura são pessoas falando. Falando, particípio presente. Pessoas vivas. Impedi-las de falar alguma coisa inofensiva é escravidão. Sobre as pessoas entenderem as propagandas, bem, alguém precisa informar o vereador que o propósito da propaganda - inclusive a comunista - é atingir o público. O propagandista não será burro de bolar uma propaganda ininteligível a seu público. E, se for, quem vai arcar com os custos de sua burrice é ele, não o consumidor e muito menos “a sociedade”.
Agora, francamente? Discuti até esse momento a lei em si, sua burrice, a dificuldade em sua aplicação. Não fiz a pergunta fundamental: quem se beneficia dela? Ora, o próprio governo, que está sempre em busca de arrecadar mais para financiar as benesses e privilégios que concede a seus funcionários. Impossível deixar de imaginar um político vendo centenas, milhares de vitrines com “sale” e sendo inspirado a conceber mais um motivo aparentemente sublime - oh, a preservação da cultura nacional! Nossa identidade! O que temos de mais precioso! A merencória luz da lua! - para achacar o setor produtivo.