
Uma conversa com a Prefeitura a respeito do IPTU
03 de Fevereiro de 2010 - por Fabio DanesiA prefeitura de São Paulo aumentou o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana, mais conhecido como IPTU. Tive uma conversinha com ela.
EU: Pra que serve o IPTU?
PREFEITURA: Simples. Pra eu deixar você morar onde você mora.
EU: O IPTU serve pra você me deixar morar em minha própria casa?
Prefeitura sorri.
PREFEITURA: Falei que era simples.
EU: Mas se a casa é minha, por que eu tenho que pagar pra você?
PREFEITURA (incrédula): Só faltava essa. Querer morar de graça em sua própria casa. Que mais você quer? Hein?
EU: Eu quero saber por que que eu tenho que pagar.
Prefeitura faz um gesto de impaciência.
PREFEITURA: Olha, funciona assim: quer morar, paga. Aliás, pode passando a grana.
EU: Você sabia que o prédio onde moro paga trezentos mil reais por ano de IPTU?
PREFEITURA: E daí?
EU: E daí que, além disso, a gente ainda tem que pagar uma empresa particular de segurança. A gente paga trezentos mil e não recebe nem segurança em troca. Outro dia fizeram arrastão num prédio a um quarteirão de distância.
Prefeitura pensa um pouco.
PREFEITURA: Quer morar, paga.
EU: Vai pelo menos arrumar o asfalto lá da rua?
PREFEITURA: Arrumei na semana passada, animal.
EU: Arrumou? Você mandou um pessoal ir lá com caminhões e britadeiras às três da manhã. Minha filha acordou com o barulho. Minha filha tem oito meses. Você não respeita o sono de um bebê.
PREFEITURA: Se não arrumo, você reclama. Se arrumo, também reclama.
EU: O pior é que não arrumaram nada. No dia seguinte choveu e abriu um monte de buraco.
PREFEITURA: E a culpa é minha? Chove e a culpa é minha! A culpa é do aquecimento global.
EU: E as calçadas?
PREFEITURA: Que que tem as calçadas?
EU: Que que tem é que não tem calçada. Não consigo passear com o carrinho da minha filha. Tem degrau, buraco, poste, árvore, pedra solta. Off-road total.
PREFEITURA: Calçada é reponsabilidade do contribuinte. Cada um cuida da sua.
EU: Então fiscaliza, porque todas as calçadas são irregulares.
PREFEITURA: Quer morar, paga.
EU: E o esgoto?
PREFEITURA: Vai reclamar do esgoto também?
EU: Vira-e-mexe o esgoto sai na rua, caminha alegremente pelo meio-fio. E o bairro fica com um cheiro podre. E olha que é um dos melhores bairros da cidade.
PREFEITURA: Você só pensa em você e no seu bairro.
EU: Eu?
PREFEITURA: É. O IPTU não é apenas pra cuidar da sua rua. O IPTU é pra ajudar os bairros mais pobres.
EU: É caridade então?
PREFEITURA: É, é caridade. Por quê? Você é contra caridade?
EU: Não, imagina. Mas é que caridade obrigatória não é caridade, né?
PREFEITURA: Como assim?
EU: Caridade tem que ser voluntária, não tem? Por definição. E você está me obrigando a pagar o imposto.
PREFEITURA (com cara de “Arrá! Te peguei!”): Então você não quer ajudar os mais pobres?
EU: Não, claro que quero. Eu não sou rico, mas quero ajudar os que são mais pobres que eu.
PREFEITURA: Então para de reclamar.
EU: Tá, eu paro. Mas me diz: se o imposto do meu prédio vai todo ou quase todo para ajudar as pessoas dos bairros mais carentes, por que os bairros mais carentes continuam, absurda e eternamente, carentes? Se o dinheiro dos bairros mais ricos vai para os bairros mais pobres, era de se supor que os bairros mais pobres fossem mais ricos que os bairros mais ricos. Ou não?
PREFEITURA: Não sei do que você está falando. Você me deixou confusa agora.
EU: Relutantemente, eu até aceito que você pegue trezentos mil reais do meu prédio e não gaste um centavo para tornar a minha vida menos desagradável. Tudo bem. Mas você dá segurança para os mais pobres? Transporte público decente? Uma escola que preste? Vou te contar uma história.
PREFEITURA: Não, pelo amor de Deus, não precisa contar nada.
EU: Não, é rapidinho, deixa eu contar. Não faz muitos anos, eu trabalhava numa editora...
Prefeitura faz cara de quem não está nem um pouco interessada.
EU: A editora abriu um concurso pra financiar projetos educacionais desenvolvidos por professoras primárias de escolas públicas. Li os dez melhores projetos. Todos, juro, TODOS tinham erros grotescos de português. Não deslizes. Não errinhos. Erros GROTESCOS. E eram de professoras primárias de escolas públicas. E eram das melhores professoras primárias de escolas públicas.
PREFEITURA: Quer morar, paga.
EU: Tá, tudo bem. Eu pago. Mas precisava aumentar o imposto?
PREFEITURA: Precisava. Você quer ou não quer ajudar os pobres?
EU: Mas os pobres não parecem estar se dando muito bem com essa política de imposto alto. Veja: quanto mais impostos as pessoas pagam, menos dinheiro elas têm. E quanto menos dinheiro elas têm, menos riquezas são produzidas. E quanto menos riquezas são produzidas, menos empregos são criados. A sociedade fica mais pobre. O rico fica mais pobre. O pobre fica mais pobre. Todo mundo fica mais pobre.
PREFEITURA: Eu não fico. (boceja) Quer morar, paga.