
Os maiores malvados do mundo
16 de Fevereiro de 2010 - por Fabio DanesiFanáticos! Radicais! Paranóicos! Manipuladores!
É o que grita o Estadão! É o que esperneia a CNN! É o que esbraveja o New York Times!
Extremistas! Raivosos! Loucos!
A grande imprensa queria ignorá-los. A grande imprensa chegou a ignorá-los. Mas a grande imprensa não pode mais ignorá-los.
Fanáticos! Radicais!
Mas quem, quem? Quem são essas pessoas?
Ahmadinejad e seus asseclas, que matam adversários políticos, fraudam eleições e almejam explodir Israel? Nããão!
Chávez e seus lacaios, que esfregam o totalitarismo na cara dos venezuelanos e buscam permanecer para sempre no poder? Nããão!
Então quem, meu Deus do céu, quem?
Eis quem: os manifestantes do movimento Tea Party.
Os manifestantes do movimento Tea Party?
Sim, os manifestantes do movimento Tea Party.
Para o Estadão, o Tea Party é um “movimento que começou com um bando de fanáticos”, um “movimento radical que ameaça democratas no poder e os republicanos moderados que tentam se eleger”. Mais: é um grupo que, segundo historiadores e analistas, “retoma paranóia direitista”. Que historiadores? Que analistas? Como canta Wolfgangus Theophilus Mozart: nes-sun-lo-sa.
Para a Folha de S. Paulo (estava lá na manchete, urrando): “Tea Party manipula a raiva das pessoas”. E a Folha amplia a voz de um tal de Joe Bageant: “o grupo não passa de um engodo”.
Para Paul Krugman, o colunista do New York Times, é um movimento de “pessoas loucas” manipuladas por sinistros “bilionários de direita”.
E para Susan Roesgen, a repórter da CNN, as manifestações desse grupo não são apropriadas para famílias assistirem.
E o que é pior: apesar dos repetidos avisos — fanáticos! radicais! extremistas! — uma pesquisa da NBC e do Wall Street Journal revelou que 41% dos americanos têm uma visão positiva do movimento. Quarenta e um por cento! Mais gente gosta do Tea Party do que do partido democrata! Mais gente gosta do Tea Party do que do partido republicano! Mais gente gosta do Tea Party do que, sei lá, de abacate!
Mas, meu Deus do céu! O que esse movimento quer? O que eles pretendem? Qual é a deles?
Querem exterminar os judeus como Hitler e Ahmadinejad? Querem se perpetuar no poder através de torturas e assassinatos como Stalin, Mao Tsé-tung, Fidel Castro e Chávez? Querem conquistar o mundo como vilões ensandecidos de histórias em quadrinhos? Querem, como o Dr. Noah do Casino Royale, matar todos os homens com mais de 1,37 cm de altura, para que seus líderes se tornem os homens mais altos do mundo e conquistem todas as mulheres?
O que eles querem? O que, o quê? Qual a grande maldade da vez?
Eles querem...
(Atencão, tirem as crianças da sala.)
Eles querem...
(Tiraram?)
Eles querem... impostos mais baixos!
Ó, meu Deus! São fanáticos!
Eles querem menos poder para o governo!
Jesus Cristo! São radicais!
Eles querem que o governo americano tenha responsabilidade fiscal!
Pelo amor dos meus filhinhos! São extremistas!
O governo americano — e o brasileiro, diga-se de passagem — acredita que quanto mais um país está endividado, mais ele tem que gastar. Ou seja: acredita que quanto mais um país fica pobre, mais ele fica rico. Os manifestantes do Tea Party não acham que isso faça lá muito sentido.
Loucos!
Eles acham que é sacanagem o governo deixar dívidas enormes para os seus filhos!
Manipuladores!
Eles acham que liberdade é melhor que ausência de liberdade. E que ausência de privilégio é melhor que privilégio. Eles acreditam que o livre mercado é uma consequência da liberdade pessoal. Acham que a liberdade econômica e a liberdade pessoal são inseparáveis.
Em outras palavras: eles querem que o governo pare de se intrometer abusivamente na vida e no bolso das pessoas. Eles querem ser deixados em paz!
Paranóicos!
No ano passado, esses loucos, esses fanáticos, esses radicais organizaram vários protestos contra as políticas intervencionistas e de alto gasto governamental do presidente Barack Obama. A maior parte foi ignorada pela grande imprensa. Um deles reuniu centenas de milhares de pessoas em Washington. A grande imprensa fez pouco caso.
Mas o movimento continuou crescendo e agora não dá mais para ignorar. Não dá mais para fazer pouco caso. Então gritam. Então esperneiam. Então esbravejam:
Fanáticos! Radicais! Paranóicos!
Manipuladores! Extremistas! Raivosos!
Loucos! Loucos! Loucos!