Ordem Livre

 

Se o leitor teve o prazer de crescer lendo as histórias do herói gaulês, provavelmente sabe que a bande dessiné, na Europa em geral, e na França em particular, está longe de ser mero entretenimento. Considerada autêntica realização artística, não raro tocam em questões que ocupam as discussões cultas. Isso se torna especialmente relevante quando lembramos que esse tipo de publicação é prioritariamente voltada para os jovens, pois isso significa que elas os introduzirão a cada nova geração.

Eis um paradoxo da cultura contemporânea: por um lado, reclamam que as pessoas não têm espírito de cooperação, se descuidam das questões coletivas e se voltam exclusivamente para os próprios objetivos; por outro, lançam impropérios contra a maior rede de cooperação humana jamais vista: o livre mercado. Sim, pois o mercado não é senão um gigantesco sistema de cooperação – um sistema dinâmico, descentralizado, onde cada indivíduo tem plena autonomia dentro da sua respectiva esfera de influência.

Na coluna passada, falei sobre como o bordão de que se deve colocar “o povo no poder” geralmente leva, no máximo, à substituição de uma elite política por outra – ou seja, em todo caso, são os políticos, e não o povo, quem fica no poder. No entanto, existe sim uma maneira de dar poder ao povo – e, por mais esquisito que isso possa parecer, ela é aquilo que popularmente se chama de “capitalismo”.

Parece-me difícil imaginar lugar-comum que cause mais confusão do que a noção de que se deve colocar “o povo no poder”. Não é que a idéia em si mesma seja boa ou má – é que, por ser mal-compreendida, ela é defendida por motivos equivocados e atacada por outros piores ainda. Como nos dias de hoje ela é amplamente aceita, precisamos começar por nos desfazer dos motivos errados para atacá-la.

Creio que uma das principais razões que levam os brasileiros a rejeitar o discurso liberal é confundir a realidade burocrática em que vivem com uma sociedade autenticamente fundada em uma ordem livre. Os formadores de opinião, afinal, atribuem a quase totalidade dos males contemporâneos ao capitalismo sem avisar ao público que o país em que vivem está muito longe de ser um exemplo de economia aberta.

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